terça-feira, 11 de novembro de 2014

Estudo alerta para contaminação da água nos chuveirões de Boa Viagem

Chuveirões de Boa Viagem estão na mira de pesquisadores da UFPE e URPE (Foto: Luna Markman/ G1)Chuveirões de Boa Viagem estão na mira de pesquisadores da UFPE e URPE (Foto: Luna Markman/ G1)
Muitos banhistas que frequentam a Praia de Boa Viagem, na Zona Sul do Recife, não se arriscam a entrar no mar com medo dos ataques de tubarão. A alternativa para se refrescar então são os chuveirões instalados pelos barraqueiros, que cavam livremente poços na areia e colocam bombas precárias para oferecer água salobra aos clientes. Uma pesquisa das universidades Federal (UFPPE) e Rural de Pernambuco (UFRPE) diagnosticou que essa água dos chuveirões possui contaminações que podem causar riscos à saúde da população. Uma checagem feita em maio deste ano apontou a presença de elementos acima do permitido por lei e, por isso, a orientação é que os frequentadores da orla evitem o banho. Outras duas checagens serão feitas até dezembro para confirmar se a água continua contaminada, o que acenderá de vez o sinal vermelho em um dos pontos turísticos mais famosos da cidade.
A pesquisa foi realizada pelas estudantes Luísa Almeida e Renata Silva, respectivamente dos cursos de farmácia e química Industrial da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), e Ana Lúcia Assunção, graduanda do curso de licenciatura em química da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), sob orientação da professora Silvana Calado, do Departamento de Engenharia Química da UFPE. Em abril, o grupo identificou a presença de 78 chuveirões ao longo da orla de Boa Viagem e, no mês seguinte, realizou o coleta de água em dez deles. Foram escolhidos poços com profundidade entre cinco e oito metros, que funcionavam de nove a 30 anos, entre o Hotel Vilarica e a casa de festas Arcádia.
Luísa Almeida (esq.) e Ana Lúcia Assunção trabalharam sob orientação da professora Silvana Calado (Foto: Luna Markman/ G1)Luísa (esq.) e Ana Lúcia trabalharam sob orientação da professora Silvana Calado (Foto: Luna Markman/ G1)
Duas amostras de cada chuveirão foram retiradas e submetidas a uma análise microbiológica (avaliando a presença de coliformes totais e fecais) e físico-química (nitrogênio total, nitrito, nitrato e fósforo). Os resultados apontaram que a maioria dos chuveirões possui níveis de concentrações desses elementos acima do indicado pelas resoluções 264/2000 e 357/2005 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama).

"Essas resoluções estabelecem parâmetros físico-químicos e microbiológicos para a água salobra tipo 1, que é o tipo usado nos chuveirões, para indicar se a água está imprópria ou não para o banho. São as mesmas resoluções que a CPRH [Agência Estadual de Meio Ambiente] usa, por exemplo, para verificar a balneabilidade da água do mar, só que levando em conta que ela é salina", explicou a estudante Luísa Almeida.
César confia na água do chuveirão (Foto: Luna Markman/ G1)César confia na água do chuveirão (Foto:Luna Markman/G1)
À reportagem do G1, os barraqueiros disseram que nunca receberam reclamação sobre a água. "Eu trabalho aqui há um ano e nunca ninguém veio falar comigo. Na verdade, falam da água do mar, que está suja com esgoto", disse o comerciante Carlos Manoel Silva, que trabalha em um ponto em frente à Padaria Boa Viagem, dentro da área pesquisada.

O comerciante César João da Silva instalou há 12 anos uma barraca na mesma região e confirma que abriu o poço por conta própria. Ele paga hoje apenas a conta da energia gasta na bomba-d'água. "Não é uma surpresa o resultado da pesquisa porque eu realmente nunca analisei essa água, mas posso dizer que nunca um cliente reclamou, e a gente também não usa essa água para cozinhar, é só banho mesmo", comentou.

Cliente assíduo de César, o comerciante Edson Costa saiu em defesa do chuveirão. "Sempre usei essa água e nunca tive problemas", disse. Já as turistas do Ceará alegaram que apareceram coceiras nas pernas após usarem o chuveirão da barraca. "A coceira atacou enquanto tomava o banho, uma mulher até me deu um pomada. Eu tomo banho de mar em Fortaleza e nos chuveiros lá também e nunca deu nada parecido", relatou.
Turistas do Ceará afirmam que coceiras apareceram após banho no chuveirão (Foto: Luna Markman/ G1)Turistas do Ceará afirmam que coceiras apareceram após
banho no chuveirão (Foto: Luna Markman/ G1)
A pesquisa alerta para os perigos que existem ao entrar em contato com a água dos chuveirões analisados. "A presença de coliformes na água pode causar uma série de doenças a partir do contato na pele e qualquer substância química é tóxica dependendo da concentração, que no caso dos chuveirões está fora dos parâmetros permitidos, e do tempo de exposição", disse a professora Silvana Calado. "Quando temos algum problema de saúde, a gente pensa em qualquer coisa menos na água. Eu mesma sempre tomei banho [nos chuveirões] e nunca me queixei. Se aparece algum pano branco, coceira, dor de barriga, a gente pensa na areia da praia, na comida, nunca associa com a água", complementou a estudante Ana Lúcia Assunção.

O grupo de pesquisa afirma que procurou a Prefeitura do Recife, Agência Pernambucana de Águas e Clima (Apac) e CPRH para saber se esta mesma análise já havia sido feita por eles, mas resposta foi negativa. De acordo com questionário aplicado junto aos barraqueiros, também não existe fiscalização da qualidade da água bombeada nesses locais.
Em outubro, o grupo coletou novas amostras nos mesmos chuveirões, procedimento que será repetido no próximo mês de dezembro. "A primeira coleta deu apenas um diagnóstico. A amostra só é representativa se você tiver o mesmo resultado três vezes. Então, vamos continuar a análise para confirmar se a contaminação permanece. Já vimos que a água tinha uma poluição, agora queremos ver o que está causando essa poluição", disse a professora.
Água usada por banhistas retorna para poço ao infiltra-se na areia (Foto: Luna Markman/ G1)Água usada por banhistas no chuveirão retorna para poço após se infiltrar na areia (Foto: Luna Markman/ G1)
As pesquisadoras já têm palpites. Elas explicaram que o índice de nitrogênio total é alto (nitrito e nitrato que podem ser encontrados na urina), o que leva a crer que parte desta poluição está relacionada ao fatos de as pessoas aproveitarem o banho para urinar no local. Já o fósforo pode ter origem nos detergentes utilizados pelos ambulantes. No entanto, não há dúvida sobre a procedência dos coliformes, já que são elementos provenientes do trato intestinal de animais de sangue quentes, incluindo os seres humanos.

Ainda existem tubulações de esgotos que são despejadas na praia, criando um ciclo, pois a água infiltra-se na areia e retorna aos poços, ficando cada vez mais contaminada. "Nós queremos alertar à população que a água que eles estão usando não está própria e que nenhum órgão se responsabiliza pela qualidade dela", apontou Ana Lúcia. "Os chuveirões devem ser interditados até que a água esteja adequada para uso de contato primário. A CPRH deveria monitorá-los assim como faz com a água do mar. Acredito que o esgoto dos chuveirões deve ser ligado à rede coletora da Compesa", pontuou a professora. Calado ainda acrescentou que outros alunos da Federal vão estudar as águas dos poços de prédios de Boa Viagem para fazer uma correlação com o resultado dos chuveirões.
G1

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