sábado, 26 de setembro de 2015

Como em 1995, petroleiros vão à greve contra privatização


Uma das categorias em campanha salarial neste segundo semestre, os petroleiros prometem cruzar os braços com uma mobilização de proporções semelhantes às de 1995, durante o governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB).

Como naquela época, o que está em jogo é a defesa da Petrobras como pilar do desenvolvimento brasileiro, princípio que norteia a luta da categoria de tal forma que a campanha salarial não terá cláusulas financeiras, mas sim a defesa da retomada dos investimentos na estatal.

A proposta é travar o Programa de Desinvestimentos previsto no Plano de Negócios e Gestão 2015-2019, programa que planeja vender US$ 60 bilhões em ativos, dos quais, US$ 15,1 bilhões até o final do ano que vem. No último 22, a Petrobras anunciou mais um passo nesse sentido, ao informar estar próxima a um acordo para vender 49% da Gaspetro, subsidiária da empresa para o setor de gás.

Em entrevista ao Portal da CUT, o presidente da FUP, José Maria Rangel, cobra que empresa saia das cordas para enfrentar a crise no centro do ringue.

A direção da Petrobras anunciou a intenção de vender ativos e ontem (22/9) informou que está prestes a se desfazer de 49% da Gaspetro. Como essas ações se relacionam com a greve anunciada pelos petroleiros
José Maria Rangel – No cenário mundial, qualquer empresa de petróleo que atua de maneira integrada é mais rentável. Na Petrobras, a área de abastecimento tem dado mais retorno do que a área de exploração e produção. A direção da companhia que quer vender parte da BR Distribuidora, parte da área de transporte de gás, nos traz uma preocupação muito grande porque começa a realizar o fatiamento da empresa, que não é bom nem para a companhia, nem para o País.

O que a FUP tem insistido em discutir não só com a Petrobras, mas também com o governo é uma agenda positiva, de retomada de investimentos na empresa, com a conclusão de algumas obras. Isso nós conseguimos dialogar com a categoria e aprovamos uma greve que vai nesse sentido, de repor os níveis de investimento de 2003.

Qual a razão desse fatiamento?

José Maria Rangel – Na avaliação dos gestores da companhia e do Conselho de Administração, a empresa precisa captar recursos para poder se manter e reduzir seu nível de endividamento. Como está tendo dificuldades de captar recursos lá fora e isso também geraria um novo endividamento, tem tomado a opção de buscar a venda de ativos para fazer caixa.

Mas, para nós, neste momento, seria fundamental o governo federal assumir que é o acionista majoritário, financiar os projetos da Petrobras e colocar dinheiro na companhia. Esse seria um dos caminhos para dar uma guinada nos rumos da empresa.

Mas aí o governo alega que não tem esse dinheiro. Como fazer?

José Maria Rangel – O governo alega que não tem esse dinheiro mas há alguns meses criou uma linha de crédito de R$ 3 bilhões para as montadoras. Pode fazer o mesmo por meio do BNDES, o banco comprar ações da Petrobras. Mas precisa de vontade política.
 

A venda da Gaspetro então é um mal negócio?
José Maria Rangel – Para você ter uma ideia, a Petrobras consegue ter o custo final de extração no pré-sal a US$ 9 porque tem toda a estrutura de escoamento do óleo e do gás. Se ela vende isso, o custo vai aumentar e daqui a pouco os urubus de sempre vão dizer que o pré-sal não é viável por conta disso. Você pode ter em alguns momentos o aumento do preço do gás também, porque não terá mais uma empresa 100% do Estado, que controla a logística de transporte de gás.

Do Rio Grande do Sul até Pernambuco você consegue interligar uma malha de gasoduto Brasil-Bolívia e tem flexibilidade de atendimento de acordo com as demandas do país. Tivemos problema agora com os reservatórios e conseguimos ligar as térmicas, que são da Petrobras. Não sei se isso seria possível se estivessem nas mãos da iniciativa privada, se iria querer o custo de transporte no patamar que temos hoje.

Como foram as assembleias para a greve?

José Maria Rangel – A categoria já aprovou a greve em data a ser apontada pela federação. A princípio, guardamos a data com alguma reserva, porque a atual legislação que trata sobre o direito à greve, apesar de colocar direitos e deveres para empregados e empregadores, estabelece que somente nós temos de cumprir com nossa parte. Temos que convocar com 72 horas de antecedência, algo que possibilita a empresa a entrar com uma equipe de fura-greve. Queremos, com essa mobilização, inclusive, discutir a lei de greve em sua amplitude. Se tem obrigações para nós, tem também que sentar conosco para discutir cota de produção, efetivo que vai tocar isso, debates que ao longo da história a Petrobras não tem feito e o Judiciário tem acobertado. Por isso temos tratado a data da nossa greve com alguma reserva.

A FUP aponta que a greve será tão forte ou mais do que a de 1995, durante o governo Fernando Henrique Cardoso (FHC). Quais são as semelhanças com esse período?

José Maria Rangel – Naquele período estávamos no primeiro ano do governo FHC e, portanto, já tinha uma política de entrega da companhia. Fomos para o enfrentamento para evitar a quebra do monopólio e a consequente privatização da empresa e hoje a gente enxerga, depois de 12 anos de governo de Lula e Dilma, em que a Petrobras retomou sua importância como indutora do desenvolvimento do país, a postura conservadora da empresa frente aos ataques à lei da partilha, no plano de desinvestimento 2015/2016. 

Você volta ao que era a companhia no início dos anos 2000. Se essa empresa começa a encolher, começar a vender ativos e só coloca no plano de negócios a área do pré-sal, obviamente, as conquistas que tivemos ao longo dos últimos anos ficam ameaçadas.

A pauta da FUP é algo totalmente novo, os trabalhadores abrem mão das cláusulas econômicas para defender a empresa. Como foi a resposta da empresa até agora?

José Maria Rangel – A Petrobras está tentando desvirtuar nossa atenção, tentando trazer para a apresentação da pauta econômica dela e não estamos dando atenção. Queremos retomada de investimentos na companhia, a retomada de política na área de saúde e segurança para que pare de ceifar a vida de nossos companheiros, a recomposição do efetivo que saiu por conta do programa de incentivo ao desligamento e também o posicionamento firme na defesa da lei da partilha como operadora única do pré-sal.

Porque o governo não aproveita esse momento para investir em sondas de operação de baixo custo para aumentar nossa produção de petróleo e explorar áreas que já estão contratadas? Por conta na queda do preço do barril, uma sonda que perfura poços e tinha uma taxa diária de aluguel a US$ 400 mil, você encontra por algo em torno de US$ 100 mil. Há uma discussão tão grande agora em torno da volta da CPMF para gerar receitas para a saúde, por que não investe no pré-sal que destina 25% de suas receitas para a área? Essa saída ousada para a crise é o que defendemos, não a conservadora, uma receita que já foi testada em outros países e não deu certo.

Como os petroleiros podem ajudar o país a sair da crise?

José Maria Rangel – A nossa contribuição é a Petrobras voltar a ter uma parcela de 13% de participação no PIB, com a geração de 1,5 milhão de emprego que tinha, investimento de R$ 300 milhões por dia que fazia em 2013, aumento substancial na produção de petróleo, no refino. Se tudo isso estiver alinhado, daremos uma contribuição significativa para o país sair da crise, que todo o mundo enfrenta, mas aqui temos alguns fatores diferenciais para enfrentá-la.


Do portal do Sindsep.





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