sexta-feira, 27 de novembro de 2015

A roda da História se move


Luciano Siqueira

Ontem, por ocasião do lançamento do livro "Dossiê Itamaracá", de Joana Côrtes - rico registro da vida e da luta no pavilhão dos presos políticos na Penitenciária Barreto Campelo, sob a ditadura militar -, como que em flash back, me veio à mente a emoção da chegada ao presídio, após mais de quarenta dias sob tortura do DOI-CODI e uma passagem pela Polícia Federal de Alagoas.
 

É que depois de mais de quatro anos constrangido a pequenas reuniões, de não mais do que quatro ou cinco participantes, sob rigorosa segurança, afinal ingressava num coletivo de mais de trinta prisioneiros. Muita gente.

Ali reencontrava companheiros do movimento estudantil da chamada geração meia oito e conhecia outros combatentes de diversas agremiações políticas.

Nas seis celas que davam para um corredor ou no pátio de solo de barro batido onde tomávamos o banho de sol, jogávamos bola e fazíamos peças de artesanato, a conversa era livre.

O diálogo, a polêmica ou simplesmente a troca de impressões sobre a vida.

O jornal mural “Unidade” acolhia textos datilografados, que expunham para nós mesmos opiniões dos mais afeitos ao debate.

Anos depois, finda a ditadura, retomada a militância à luz do dia, numa das datas redondas de celebração da Anistia, fomos entrevistados juntos, Miguel Arraes e eu, por uma repórter de TV.

Hábil e inteligente, a repórter nos conduziu a comparar o tempo de vida clandestina, prisão, cadeia e exílio com a nova ascensão do movimento democrático. O ex-governador Arraes, então, sentenciou:

- Naquele tempo, temíamos os fuzis e as baionetas, a prisão e a tortura, não podíamos falar. Hoje, já não tememos a repressão policial, podemos falar. O risco não é sermos presos, é não ser os compreendidos, tamanha a distorção da realidade pelos meios de comunicação. 

Ele se referia à espécie de “pensamento único” imposto a ouvintes, leitores e telespectadores.


Aos internautas, nem tanto, pois na grande rede ainda é possível estabelecer o contraditório e apresentar "a luta face" dos acontecimentos.

A declaração de Arraes me veio à mente ontem, no breve debate que antecedeu a sessão de autógrafos. Pedro, 15 anos, meu neto, em depoimento emocionado, agradeceu à geração de militantes retratada no livro de Joana Côrtes pela liberdade que as gerações atuais têm de expressar o que pensam e fazer suas escolhas.

A roda História se move. Para adiante.








Com informações da assessoria.


















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