segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Google não é o que parece

O diretor executivo do Google Eric Schmidt conta uma piada para Hillary Clinton durante uma especial "conversa ao pé da lareira" com a equipe do Google. A conversa ocorreu no dia 21 de Julho de 2014, na sede do Google em Mountain View, Califórnia, Estados Unidos.


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Eric Schmidt é uma figura influente, mesmo entre o rol dos poderosos personagens com quem cruzei o caminho desde quando fundei o WikiLeaks. Em meados de maio de 2011, eu estava sob prisão domiciliar na área rural de Norfolk, cerca de três horas de carro da região nordeste de Londres. A repressão contra o nosso trabalho estava a pleno vapor e cada momento perdido parecia uma eternidade. Era difícil que algo desviasse minha atenção, mas quando meu colega Joseph Farrell me disse que o presidente executivo do Google queria marcar uma entrevista comigo, eu prestei atenção.

        
Em certos aspectos, o alto escalão do Google parecia mais distante e obscuro para mim do que os corredores de Washington. Nós estivemos enfrentando oficiais sêniores dos Estados Unidos por anos aquela altura. A magia havia se passado, mas os crescentes centros de poder do Vale do Silício continuavam opacos e, de repente, eu estava diante de uma oportunidade de entender e influenciar o que havia se tornado a mais influente empresa na Terra. Schmidt havia se tornado CEO do Google em 2001 e transformou-o num império.1
        
Eu estava intrigado que a montanha viesse até Maomé. Mas foi só depois de receber Schmidt e seus colegas que entendi quem realmente tinha me visitado.

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A razão pela visita era o livro. Schmidt estava escrevendo um tratado com Jared Cohen, o diretor do Google Ideas, uma organização que se descreve como o "think/do tank" (I) da casa. Eu sabia muito pouco sobre Cohen naquele momento. Na verdade, Cohen se mudara do Departamento de Estado dos Estados Unidos para o Google em 2010. Ele tem sido um homem disseminador das ideias da "Geração Y" no Estado durante duas administrações presidenciais, um cortesão do mundo da política dos think tanks e institutos, aliciado aos seus vinte e poucos anos. Ele se tornou um conselheiro sênior da Secretaria de Estado de Condoleezza Rice e Hillary Clinton. No Estado, com a equipe de Planejamento Político, Cohen logo foi batizado de "anima-festas"(II), canalizando os jargões do Vale do Silício para dentro dos círculos da política estadunidense e produzindo deliciosas misturas de retóricas como "Diplomacia 2.0".2 Em sua página pessoal no Conselho de Relações Exteriores, ele lista sua expertise como "terrorismo; radicalização, impacto das tecnologias de conexão no estadismo do século 21; Irã."3
       
Diretor do Google Ideas e "visionário geopolítico" Jared Cohen compartilha suas visões com os recrutas do Exército Norte Americano numa palestra no teatro na Academia das Forças Armadas em West Point em 26 de Fevereiro de 2014 - (Instagram por Eric Schmidt)
Foi Cohen que, quando estava ainda no Departamento de Estado, disse ter enviado um email para o diretor executivo do Twitter, Jack Dorsey, para atrasar a manutenção técnica agendada e auxiliar o levante no Irã, que acabara sendo abortado em 2009.
4 Esse documentado caso de amor com o Google começou no mesmo ano, quando ele fez amizade com Eric Schmidt ao inspecionarem juntos os destroços da pós-ocupação de Bagdá. Alguns meses depois, Schmidt recriou o habitat natural de Cohen dentro do Google ao engendrar o "think/do tank", estabelecido em Nova Iorque, e colocando Cohen como chefe. Nascia o Google Ideas.
        
Mais tarde, naquele ano, os dois escreveram conjuntamente um artigo para o jornal Foreign Affairs ("Relações Exteriores"), do Conselho das Relações Exteriores, louvando o potencial de reforma das tecnologias do Vale do Silício como um instrumento da política externa dos Estados Unidos.5 Descrevendo o que eles haviam chamado de "coalizão dos conectados",6 Schmidt e Cohen afirmaram que

os Estados democráticos que construíram as coalizões de suas forças armadas têm a capacidade de fazer o mesmo com as suas tecnologias de conexão... Elas oferecem uma nova forma de exercitar o dever de proteger os cidadãos ao redor do mundo. [ênfase nossa].7

No mesmo artigo eles defendiam que "essa tecnologia é oferecida de maneira predominante pelo setor privado". Logo após a Tunísia, o Egito e depois o resto do Oriente Médio irromperam em revoluções. Os ecos desses acontecimentos nas redes sociais online se tornaram um espetáculo para os usuários ocidentais da internet. Os comentaristas profissionais, interessado em racionalizar os levantes contra ditaduras apoiadas pelos Estados Unidos, nomearam esses levantes como "Revoluções do Twitter". De uma hora para outra todo mundo queria ser um ponto de intersecção entre o poder global americano e as redes sociais, e Schmidt e Cohen já haviam se apossado desse terreno. Com o título "O Império da Mente", eles começaram a expandir seu artigo para o tamanho de um livro, e procuraram se reunir com grandes nomes do ramo da tecnologia e do poder global como parte de sua pesquisa.

Eles falaram que queriam me entrevistar. Eu concordei. Uma data foi marcada para junho.

Eric Schmidt, Executivo do Google, no painel "Pulso da Economia Global Anual" da reunião anual da Iniciativa Global Clinton (CGI), 26 de setembro de 2013 em Nova Iorque. Eric Schmidt compareceu pela primeira vez à reunião anual da CGI na plenária de abertura em 2010. (Fotografia: Mark Lennihan)


Quando junho chegou, já havia muito a conversar. Naquele verão o WikiLeaks ainda estava liberando os telegramas diplomáticos dos Estados Unidos, publicando milhares deles toda semana. Quando, sete meses antes, começamos a liberar os telegramas, Hillary Clinton havia denunciado a publicação como "um ataque à comunidade internacional" que iria "destruir o tecido constitutivo" do governo.
        
Foi dentro dessa efervescência que o Google se projetou naquele junho, pousando em um aeroporto de Londres e fazendo a longa viagem em East Anglia até Norfolk e Beccles. Schmidt chegou primeiro, acompanhado pela sua companheira na época, Lisa Shields. Quando ele a apresentou como uma vice-presidente do Conselho sobre Relações Exteriores -- uma think-tank de política externa com laços estreitos ao Departamento de Estado -- eu pensei um pouco mais do mesmo. Shields havia acabado de sair de Camelot, tendo sido vista próxima de John Kennedy Jr. no início dos anos 90. Eles se sentaram comigo e trocamos elogios. Disseram que tinham esquecido o gravador de áudio deles, então usamos o meu. Fizemos um acordo que eu passaria a gravação para eles e que em troca eles iriam me passar a transcrição, a ser corrigida para maior clareza e precisão. Nós começamos. Schmidt foi direto ao ponto, já me interrogando sobre as bases tecnológicas e organizacionais do WikiLeaks.
        
Mais tarde Jared Cohen chegou. Com ele estava Scott Malcomson, apresentado como o editor do livro. Três meses depois da reunião, Malcomson ingressaria no Departamento de Estado como principal escritor de discursos e conselheiro de Susan Rice (na época embaixadora dos EUA nas Nações Unidas e agora Conselheira de Segurança Nacional). Ele havia servido anteriormente como conselheiro sênior nas Nações Unidas, e é um membro de longa data do Conselho de Relações Exteriores. No momento em que escrevo, ele é o diretor de comunicações do Grupo de Crise Internacional.8
        
A esse ponto, a delegação era uma parte Google, três partes de figurões da política externa dos EUA, mas eu ainda não tinha percebido a situação. Apertos de mão dados, nós passamos aos negócios.
Diretor Executivo do Google Eric Schmidt fotografado em um elevador de Nova York carregando o novo livro de Henry Kissinger, "Ordem Mundial", 25 setembro de 2014

Schmidt era um bom sidekick. Um cinquentão, com olhar mordaz atrás de óculos garrafais, vestido como um executivo — sua aparência rígida ocultava uma máquina analítica. Suas perguntas frequentemente pulavam para o âmago da questão, denunciando assim uma poderosa estrutura de inteligência não-verbal. Era o mesmo intelecto que abstraiu os princípios de engenharia de software para transformar o Google numa megacorporação, garantindo que a infraestrutura corporativa sempre se encontrasse com a taxa de crescimento. Essa era uma pessoa que entendia sobre como construir e manter sistemas: sistemas de informação e sistemas de pessoas. Meu mundo era novo para ele, mas era também um mundo de desdobramentos de processos humanos, escala e fluxos de informação.
        
Para um homem de inteligência sistemática, a noção política de Schmidt era -- até onde eu consegui captar da nossa discussão -- surpreendentemente convencional, até mesmo banal. Ele compreendeu os relacionamentos estruturais rapidamente, mas lutou para verbalizar muitos deles, muitas vezes calçando sutilezas geopolíticas com o marketing do Vale do Silício ou o dialeto engessado dos colegas do Departamento de Estado.9 Ele estava em sua melhor forma quando estava falando (talvez ele não tenha percebido isso) como um engenheiro, quebrando as complexidades em seus componentes ortogonais.
        
Eu achei Cohen um bom ouvinte, mas um pensador menos interessante, possuído daquele convívio massante que a rotina aflige à carreira de grandes especialistas e acadêmicos de alto prestígio (III). Como se poderia esperar da sua bagagem de política externa, Cohen tinha conhecimento de pontos de ebulição social e conflitos internacionais, e movia-se rapidamente entre eles, detalhando cenários diferentes, para testar as minhas asserções. Porém, algumas vezes senti que ele fazia improvisações ortodoxas de um jeito que usava para impressionar seus antigos colegas em Washington. Malcomson, mais velho, era mais pensativo, sua participação foi generosa e de reflexão. Shields ficou em silêncio quase toda a conversa, tomando notas, agradando os grandes egos ao redor da mesa enquanto ficava com o trabalho de fato.
        
Enquanto entrevistado, eu estava esperando fazer a maior parte das falas. Procurei orientá-los para a minha visão de mundo. Para o crédito deles, eu considero essa entrevista, talvez, a melhor que eu já concedi. Eu estava fora da minha zona de conforto e eu gostei disso. Nós comemos e depois andamos pelo lugar, tudo isso enquanto gravávamos. Eu solicitei a Eric Schmidt para vazar as requisições de informação feitas pelo governo dos Estados Unidos para o WikiLeaks, e ele recusou, subitamente nervoso, citando a ilegalidade da divulgação dos pedidos do Ato Patriota. E então assim como a noite veio, eles foram embora, de volta para o irreal, as remotas salas do império da informação, e eu fui deixado para voltar ao meu trabalho. Esse era o fim, ou eu pensava que era.

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Dois meses depois, a publicação pelo WikiLeaks dos telegramas diplomáticos do Departamento de Estado estava chegando a um abrupto fim. Durante nove meses, nós gerenciamos meticulosamente a publicação, movimentando mais de uma centena de parceiros da imprensa global, distribuindo documentos nas suas regiões de influência, e supervisionando mundialmente um sistema de redação e de publicação sistemática, lutando pelo máximo de impacto das nossas fontes.
        
Mas num ato de negligência grosseira o jornal Guardian - nosso antigo parceiro - publicou a senha confidencial para decifrar todos os 251.000 documentos no título do capítulo de seu livro, lançado às pressas em fevereiro de 2011.10 Por volta de agosto, nós descobrimos que um ex-colaborador alemão - cujas atividades eu suspendi em 2010 - estava estabelecendo relações comerciais com uma série de organizações e indivíduos, vendendo a localização do arquivo criptografado juntamente com a senha encontrada no livro. Pela velocidade que a informação estava se espalhando, nós estimamos que dentro de duas semanas a maioria das agências de inteligência, prestadores de serviços e intermediários já teriam todos os telegramas, enquanto o público geral não.

Eu decidi que era necessário antecipar nossa agenda de publicação em quatro meses e contatei o Departamento de Estado para deixar registrado que nós demos um aviso prévio para eles. Assim, a situação seria mais difícil de terminar num novo ataque político ou jurídico. Impossibilitado de falar com Louis Susman, o embaixador dos Estados Unidos no Reino Unido, nós tentamos a porta da frente. A editora de investigação do WikiLeaks, Sarah Harrison, ligou para a recepção do Departamento de Estado e informou para o operador que “Julian Assange” queria ter uma conversa com Hillary Clinton. Previsivelmente, essa declaração foi inicialmente recebida com uma descrença burocrática. Logo nos encontrávamos numa reencenação da cena do filme Dr. Strangelove, onde Peter Sallers telefona para a Casa Branca para alertar sobre a iminência de uma guerra nuclear e é imediatamente colocado na linha de espera. Assim como no filme, nós subíamos a hierarquia, falando gradualmente com autoridades superiores até nós alcançarmos o conselheiro jurídico sênior da Clinton. Ele nos disse que ligaria de volta. Nós desligamos e esperamos.


Sarah Harrison e Julian Assange telefonam para o Departamento de Estado dos Estados Unidos em Setembro de 2011.

Quando o telefone tocou meia hora depois, não era o Departamento de Estado do outro lado da linha. Ao invés disso, era Joseph Farrell, o membro do WikiLeaks que marcou a reunião com o Google. Ele havia acabado de receber um e-mail da Lisa Shields, tentando confirmar se era realmente o WikiLeaks ligando para o Departamento de Estado.
        
Foi nesse momento que eu percebi que Eric Schmidt poderia não ser apenas um emissário do Google. Oficialmente ou não, ele vinha mantendo contatos que o colocaram muito próximo a Washington, incluindo um relacionamento amplamente documentado com o Presidente Obama. Não só as pessoas ligadas à Hillary Clinton sabiam que a companheira de Eric Schmidt havia me visitado, mas eles também elegeram-na como seu canal de retorno. Enquanto o WikiLeaks tinha estado profundamente envolvido na publicação do arquivo interno do Departamento de Estado dos EUA, o próprio Departamento de Estado havia, na verdade, entrado sorrateiramente pelo centro de comando do WikiLeaks e me convidado para um almoço grátis. Dois anos depois, após as suas visitas no início de 2013 para a China, Coreia do Norte e Burma, é que viria a ser observado que o diretor executivo do Google estaria conduzindo, de uma forma ou de outra, uma "diplomacia de canal de retorno" para Washington. Mas naquele momento era uma ficção pensar isso.11
   
Instagram de Eric Schmidt da Hillary Clinton e David Rubinstein, tirada em Fórum de Gala de Holbrooke, 5 de dezembro de 2013. Richard Holbrooke (que morreu em 2010) era um diplomata americano do alto escalão, diretor administrativo da Lehman brothers, membro da NED, CFR, a Comissão Trilateral, direção do Clube de Bilderberg e conselheiro de Hillary Clinton e John Kerry. Schmidt doou mais de $100 mil para o Holbrooke Forum
Eu deixei isso de lado até fevereiro de 2012, quando o WikiLeaks - juntamente com mais de trinta dos nossos parceiros da mídia internacional - começou a publicar o "Global Intelligence Files": o banco de dados de emails internos de uma firma de inteligência privada do Texas, a Stratfor.
12 Um dos nossos maiores parceiros investigativos Al Akhbar— vasculhou os emails da inteligência sobre Jared Cohen.13 As pessoas na Stratfor, que gostam de pensar que são como uma CIA empresarial, estavam perfeitamente cientes de outros empreendimentos que eles viam como fazendo incursões no setor deles. O Google entrou no radar deles. Numa série de emails vulgares eles discutiam o padrão de atividade conduzida por Cohen sob a égide do Google Ideas, sugerindo o que realmente significava a palavra "fazer"("do") da expressão "think/do tank".

A diretoria de Cohen parecia cruzar a linha do trabalho de relações públicas e a "responsabilidade empresarial" para uma ativa intervenção corporativa nas relações exteriores em um nível que é normalmente reservado aos Estados. Jared Cohen poderia ser chamado ironicamente de "diretor do regime de mudanças". Segundo esses emails, ele estava tentando deixar suas marcas em alguns dos maiores eventos históricos no Oriente Médio contemporâneo. Ele pode ser encontrado no Egito durante a revolução, se reunindo com Wael Ghonim, o funcionário do Google cuja detenção e prisão transformou-o horas depois num símbolo do levante politicamente simpático na imprensa ocidental. Foram planejadas reuniões na Palestina e na Turquia, ambas - afirmadas pelos emails da Stratfor - foram descartadas pelo experiente líder do Google como sendo muito arriscadas. Apenas alguns meses antes dele me conhecer, Cohen estava planejando uma viagem para a fronteira do Irã, no Azerbaijão, para "engajar as comunidades iranianas próximas da fronteira" como parte do projeto do Google Ideas sobre "sociedade repressivas". Em emails internos, o vice-presidente de inteligência da Stratfor, Fred Burton (ele mesmo um ex-oficial de segurança do Departamento de Estado) escreveu,

O Google está conseguindo apoio e cobertura aérea da Casa Branca e do Departamento de Estado. Na realidade eles estão fazendo coisas que a CIA não pode fazer . . . [Cohen] vai acabar sendo sequestrado ou assassinado. Talvez isso seja a melhor coisa para acontecer para expor o papel secreto do Google na agitação de levantes, para ser sincero. O Governo dos Estados Unidos pode então negar saber disso e o Google será deixado na mão segurando o saco de merda.14

Em outra comunicação interna, Burton disse que suas fontes sobre as atividades do Cohen eram Marty Lev - diretor do Google de Segurança e Proteção - e o próprio Eric Schmidt.
15 Procurando por algo mais concreto, eu comecei a pesquisar no arquivo do WikiLeaks informações sobre Cohen. Os telegramas do Departamento de Estado divulgados como parte do Cablegate revelam que Cohen esteve no Afeganistão em 2009, tentando convencer as quatro maiores operadoras de telefonia móvel a mover suas antenas para as bases militares dos Estados Unidos.16 No Líbano, ele trabalhou discretamente tentando estabelecer um rival religioso e intelectual contra o Hezbollah, a "Higher Shia League"17 E em Londres, ele ofereceu fundos aos executivos do cinema de Bollywood caso inserissem em seus filmes conteúdo anti-extremistas e prometeu conectá-los nas redes relacionadas em Hollywood.18
        
Três dias após ele ter me visitado em Ellingham Hall, Jared Cohen voou para a Irlanda para dirigir o "Save Summit", um evento co-patrocinado pelo Google Ideas e o Conselho das Relações Exteriores. Reunindo ex-membros de gangues da cidade, militantes da extrema-direta, nacionalistas violentos e "extremistas religiosos" de todo o lugar do mundo juntos num único lugar, o evento buscou propor soluções tecnológicas para o problema do "extremismo violento".19 O que é que poderia dar errado?
        
O mundo de Cohen parece ser um evento após o outro: noites intermináveis ​​para o cruzamento da influência entre as elites e seus vassalos, sob a rubrica piedosa de "sociedade civil". O entendimento geral nas sociedades capitalistas avançadas é que ainda existe um "setor da sociedade civil" orgânico, no qual se as instituições formam autonomamente e se juntam para manifestar os interesses e vontade dos cidadãos. A fábula diz que as fronteiras desse setor são respeitadas pelos atores, como o governo e o "setor privado", deixando assim um espaço seguro para as ONGs e organizações não lucrativas militarem por coisas como direitos humanos, liberdade de expressão e responsabilidade governamental.
        
Isso soa como uma grande ideia. Mas se isso alguma vez foi verdade, não o foi por mais de décadas. Desde pelo menos os anos 70, atores autênticos como sindicatos e igrejas têm se curvado sob os ataques contínuos realizados pelo estatismo de livre mercado, transformando a "sociedade civil" num balcão de negócios para facções políticas e interesses corporativos que procuram exercer influência no próprio mercado. Os últimos quarenta anos têm sido de uma grande proliferação de think tanks e ONGs políticas cujo propósito, para além de toda a verborragia, é executar agendas políticas por representação.
        
Não são apenas os óbvios grupos do campo neoconservador, como o Foreign Policy Initiative.20Também inclui ONGs ocidentais fátuas como a Freedom House, onde ingênuos, porém, bem intencionados profissionais de carreira não-lucrativa são virados do avesso pelos fluxos de financiamento político, denunciando as violações dos direitos humanos não-ocidentais, enquanto os abusos locais são seguramente mantidos em pontos cegos. O circuito de conferência da sociedade civil - que importa ativistas de países em desenvolvimento para o resto do mundo centenas de vezes ao ano para abençoar a união profana entre "governo e agentes privados" em eventos geopolitizados como o Fórum da Internet em Estolcomo - simplesmente não poderia existir se não fossem injetados milhões de doláres de financiamento político anualmente.

Verifique os membros associados aos grandes institutos e think tanks dos Estados Unidos e os mesmos nomes continuarão a aparecer. A "Save Summit" de Cohen foi para semear a AVE, ou AgainstViolentExtremism.org, um projeto de longo prazo cujo principal financiador, além do Google Ideas, é a Fundação Gen Next. O site dessa fundação diz que é "uma organização de associação exclusiva e plataforma para indivíduos bem sucedidos" que visa a "mudança social" impulsionada pelo financiamento do capital de risco.21 A Gen Next é uma fundação não lucrativa do setor privado que evita apoiar alguns dos potenciais conflitos conhecidos enfrentados por iniciativas financiadas por governos".22 Jared Cohen é um membro executivo.
 
Jared Cohen no palco com os delegados na cidade de Nova Iorque para cúpula inaugural da "Aliança dos Movimentos da Juventude" (Alliance of Youth Movements), em 2008.
A Gen Next também financia uma ONG, lançada por Cohen perto do fim do seu mandato no Departamento de Estado, para trazer "ativistas pró-democracia" da Internet para dentro da rede de patrocínio das relações externas dos EUA.
23 O grupo originado como a "Aliança dos Movimentos da Juventude com uma cúpula inaugural na cidade de Nova Iorque, em 2008, foi financiado pelo Departamento de Estado e incrustada de logos dos patrocinadores corporativos.24 A conferência trouxe cuidadosamente ativistas selecionados das mídias sociais de "áreas problemáticas" como Venezuela e Cuba para assistir aos discursos da nova equipe de mídia de campanha do Obama e James Glassman do Departamento de Estado, e para fazer networking com os consultores de relações públicas, "filantrópicos", e personalidades da mídia dos Estados Unidos.25 A organização realizou duas outras cúpulas apenas para convidados em Londres e na Cidade do México, onde os delegados eram diretamente abordados por vídeolink pela Hillary Clinton:26

Vocês são a vanguarda de uma nova geração de ativistas cidadãos. . . . E isso faz de vocês o tipo de líderes que precisamos.27

A Secretária de Estado Hillary Clinton abordando os delegados da Cúpula Anual da Aliança dos Movimentos da Juventude na Cidade do México, em 16 de Outubro de 2009, por vídeolink.

Em 2011, a Aliança dos Movimentos da Juventude se renomeou como "Movements.org". Em 2012, o Movements.org se tornou uma divisão da "Advancing Human Rights", uma nova ONG montada por Robert L. Bernstein depois que saiu da Human Right Watch (a qual fundou originalmente), porque sentiu que não deveria cobrir os abusos de direitos humanos em Israel e Estados Unidos.28 A Advancing Human Rights visa corrigir a Human Right Watch ao se focar exclusivamente em "ditaduras"29 Cohen declarou que a fusão do seu grupo do Movements.org com a Advancing Human Rights era "irresistível", apontando para a recente "fenomenal rede de ciberativistas no Oriente Médio e no Norte da África".30 Ele então entrou na diretoria da Advancing Human Rights, a qual inclui também Richard Kemp, o ex-comandante das forças britânicas na ocupação do Afeganistão.31 Em sua forma atual, Movements.org continua recebendo fundos da Gen Next, assim como do Google, MSNBC e a Edelman, a firma gigante das relações públicas que representa a General Electric, Boeing e Shell, entre outras.32
Uma captura de tela da página dos "Apoiadores e patrocinadores" em movements.org.
O Google Ideas é maior, mas segue a mesma estratégia. Passe o olho na lista dos palestrantes de suas reuniões anuais fechadas para apenas convidados, como a "Crises num Mundo Conectado", em Outubro de 2013. Teóricos das redes sociais e ativistas dão ao evento um verniz de autenticidade, mas na verdade vangloria-se uma piñata tóxica de convidados: oficiais dos Estados Unidos, magnatas das telecomunicações
consultores de segurança, capitalistas financeiros e abutres técnicos da política externa como Alec Ross (gêmeo do Cohen no Departamento de Estado).33 Em seu núcleo duro estão os compradores de armas e militares de carreira: chefes ativos do Ciber Comando dos Estados Unidos, e mesmo o Almirante responsável por todas as operações militares dos Estados Unidos na América Latina entre 2006 e 2009. Fechando o pacote estão Jared Cohen e o diretor executivo do Google, Eric Schmidt.34

Eu comecei a pensar em Schmidt como um brilhante bilionário da tecnologia da Califórnia, mas politicamente infeliz, que havia sido explorado pelos próprios tipos da política externa estadunidense que ele havia escolhido para atuar como tradutor entre ele e os funcionários de Washington - uma ilustração do problema agente-principal Costa Oeste - Costa Leste.35
       Eu estava errado.

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Eric Schmidt nasceu em Washington, DC, onde seu pai trabalhou como professor e economista no Departamento do Tesouro de Nixon. Ele cursou o ensino médio em Arlington, Virginia, antes de se graduar em engenharia em Princeton. Em 1979, Schmidt saiu do Oeste para Berkeley, onde ele recebeu seu PhD antes de entrar em Stanford/Berkeley na fusão com a Sun Microsystems, em 1983. Dezesseis anos depois de deixar a Sun, ele se tornou parte da sua liderança executiva.
        
A Sun tinha contratos importantes com o governo norte americano, mas não foi antes dele estar em Utah como diretor executivo da Novell que os registros mostraram Schmidt estrategicamente se engajando abertamente com a classe política de Washington. Os registros da campanha política de financiamento federal mostram que, em 6 de Janeiro de 1999, Schmidt fez duas doações de $1.000 para o senador Republicano de Utah, Orrin Hatch. No mesmo dia, a esposa de Schmidt, Wendy, também foi listada em duas doações de $1.000 para o Senador Hatch. No início de 2001, mais de uma dezena de outros políticos e PACs, incluindo Al Gore, George W. Bush, Dianne Feinstein e Hillary Clinton estavam na lista de pagamento de Schmidt, num dos casos pagando $100.000.36 Em 2013, Eric Schmidt - que já estava publicamente super-associado com a Casa Branca de Obama - foi mais político. Oito republicanos e oito democratas foram diretamente financiados, assim como dois PACs. Em abril daquele ano, $32.300 foram para o Comite Nacional dos Senadores Republicanos. Um mês depois, ele enviou o mesmo montante, $32.300, direcionado para o Comite de Campanha de Senadores Democratas. Por que Schmidt doou exatamente a mesma quantia de dinheiro para os dois partidos é uma pergunta de $64.600.37
        
Foi também em 1990 que Schmidt entrou no conselho de diretores de um grupo baseado em Washington DC: a New America Foundation (Fundação Nova América), uma fusão das forças do centro bem conectadas (nos termos de Washington). A Fundação e seus 100 membros servem como uma fábrica de influência, usando suas redes de segurança nacional, política externa e especialistas de tecnologia para inserir centenas de reportagens e artigos de opinião por ano. Em 2008, Schmidt havia se tornado o presidente do conselho diretor. Assim em 2013, os principais financiadores da New America Foundation (cada um contribuindo mais de $1 milhão) são listados como Eric e Wendy Schmidt, o Departamento de Estado dos EUA e a Fundação de Bill & Melinda Gates. Os financiadores secundários incluem Google, USAID e a Radio Free Asia.38
        
O envolvimento de Schmidt na New America Foundation o colocou de forma sólida no establishment das relações em Washington. Dos outros diretores da fundação, 7 também configuram-se entre membros do Conselho das Relações Exteriores, incluindo Francis Fukuyama, um dos pais intelectuais do movimento neoconservador; Rita Hauser, que serviu no Conselho Consultivo de Inteligência tanto dos presidentes Bush como Obama; Jonathan Soros, o filho de George Soros; Walter Russel Mead, estrategista de segurança dos Estados Unidos e editor da American Interest; Helene Gayle, membra dos conselhos da Coca-Cola, da Colgate-Palmolive, da Fundação Rockefeller, da Unidade Política das Relações Exteriores do Departamento de Estado, do Conselho das Relações Exteriores, do Centro de Estudos Internacionais e Estratégicos, do programa de apoiadores da Casa Branca, da Campanha ONE do cantor Bono; e Daniel Yergin, geoestrategista do petróleo, ex-diretor da Força Tarefa nas Pesquisas Estratégicas de Energia do Departamento de Energia e autor do "O Prêmio: A Jornada Épica pelo Petróleo, Dinheiro e Poder" ("The Prize: The Epic Quest for Oil, Money and Power")39
     
Diretor executivo do Google, Eric Schmidt apresenta Hillary Clinton como palestrante principal na conferência de 16 de maio de 2014 "Grandes Ideias para a Nova América" da New America Foundation, o qual Schmidt é Presidente do Conselho e principal financiador.
O chefe executivo da Fundação, indicado em 2013, era a antiga chefe de Jared Cohen na Equipe de Planejamento Político do Departamento de Estado, Anne-Marie Slaughter, uma nerd do 
direito e das relações internacionais de Princeton com um olho nas "portas giratórias" entre o governo e a iniciativa privada.40 Ela está em todos os lugares, na hora de escrever, emitindo chamados para Obama para responder a crise na Ucrânia, não apenas enviando forças secretas dos Estados Unidos dentro do país, mas também jogando bombas na Síria - sob a tese de que isso mandará uma mensagem para a Rússia e a China.41 Junto com Schmidt, ela é uma convidada da conferência de Bilderberg, em 2013, e tem assento no Conselho Político de Relações Externas do Departamento de Estado.42
        
Não havia nada politicamente infeliz sobre Eric Schmidt. Eu estava muito ansioso para enxergar um engenheiro do Vale do Silício politicamente não ambiguo, uma relíquia dos velhos e bons tempos da cultura universitária da ciência da computação da Costa Oeste. Porém, não é esse tipo de pessoa que participa da conferência de Bilderberg por quatro anos consecutivos, que paga visitas regulares para a Casa Branca ou que proporciona "conversas ao pé da lareira" no Fórum Econômico Mundial de Davos.43 O aparecimento de Schmidt como "Ministro das Relações Exteriores" - com pompa e cerimônia de Estado, visitado pelas linhas falhas da geopolítica - não saiu do nada; tem sido prenunciado por anos de assimilação dentro das redes de reputação e influência do establishment norte-americano.  
        
No nível pessoal, Schmidt e Cohen são pessoas extremamente simpáticas. Mas o presidente do Google é um clássico jogador "chefe da indústria", com toda a bagagem ideológica que vem junto com esse papel.44Schmidt encaixa-se exatamente aonde está: o ponto onde o centrista, o liberal e as tendências imperialistas se encontram na vida política americana. Ao que tudo indica, os chefes do Google acreditam, genuinamente, no poder civilizacional das corporações multinacionais esclarecidas, e eles veem essa missão como algo contínuo com o remodelamento do mundo de acordo com o melhor julgamento do "superpoder benevolente". Eles falarão para você que ter a mente aberta é uma virtude, mas todas as perspectivas que desafiam a unidade essencial no coração da política externa americana permanecerá invisível para eles. Essa é a impenetrável banalidade do "não seja mau". Eles acreditam que estão fazendo o bem. E isso é um problema.

* * *

Google é "diferente". Google é "visionário". Google é "o futuro". Google é "mais que uma empresa". Google "devolve para a comunidade". Google é "uma força do bem".
        
Mesmo quando o Google anuncia sua ambivalência corporativa publicamente, faz pouco para remover esses elementos de fé.45 A reputação da empresa é aparentemente incontestável. Google é colorido, seu logo animado é impresso nas retinas humanas apenas seis bilhões de vezes cada dia, 2,1 trilhões de vezes por ano - uma oportunidade para o condicionamento desfrutado por nenhuma outra corporação na história.46 Pego em flagrante no ano passado, quando tornou disponível os petabytes de dados pessoais para a comunidade de inteligência dos Estados Unidos através do programa PRISM. O Google, no entanto, continua a surfar na esperança gerada pelo duplo sentido de "não seja mau". Algumas poucas cartas abertas simbólicas para a Casa Branca mais tarde e parece que tudo foi perdoado. Até mesmo os ativistas anti-vigilância não conseguem se ajudar, pois ao mesmo tempo que condenam a espionagem do governo, tentam alterar as práticas de vigilância invasiva do Google usando estratégias de apaziguamento.47
        
Ninguém quer reconhecer que Google se tornou grande e mau. Mas se tornou. A partir da posse de Schmidt como chefe executivo se vê a integração do Google com a cinzenta estrutura de poder dos Estados Unidos, com sua expansão numa megacorporação invasiva geograficamente. E o Google está confortável com essa aproximação. Muito antes dos fundadores da empresa Larry Page e Sergey Brin contratarem Schmidt em 2001, suas pesquisas iniciais, nas quais o Google foi baseado, foram parcialmente financiadas pelo Defense Advanced Research Projects Agency (DARPA).48 E mesmo quando o Google de Schmidt desenvolveu uma imagem como o super amigável gigante da tecnologia global, ele estava construindo um relacionamento próximo com a comunidade de inteligência.
        
Em 2003, a Agência de Segurança Nacional (National Security Agency - NSA) já havia começado a violar sistematicamente o Foreign Intelligence Surveillance Act (FISA) sob seu diretor General Michael Hayden.49 Esses eram os dias do programa "Total Information Awareness".50 Antes do PRISM ser jamais sonhado, sob as ordens da Casa Branca de Bush, a NSA já visava "coletar tudo, capturar tudo, saber de tudo, processar tudo, explorar tudo".51 Durante esse mesmo período, Google - cujo qual declarou que sua missão corporativa é coletar e "organizar a informação do mundo e torná-la universalmente acessível e útil"52 estava aceitando dinheiro da NSA na ordem de $2 milhões de dólares para prover para a agência as ferramentas de pesquisa para ampliar sua reserva de conhecimento roubado.53
        
Em 2004, depois de tomar Keyhole, uma startup de mapeamento de tecnologia cofundada pela Agência de Inteligência Geoespacial Nacional (National Geospatial-Intelligence Agency - NGA) e a CIA, o Google desenvolveu a tecnologia para o Google Mapas, uma versão corporativa dele foi então vendida para o Pentágono e agências federais e do Estado associadas por contratos multimilionários de dólares.54 Em 2008, Google ajudou a lançar um satélite espião da NGA, o GeoEye-1, no espaço. Google compartilhou as fotos do satélite com os militares americanos e as comunidades de inteligência.55 Em 2010, a NGA recompensou o Google num contrato de $ 27 milhões por "serviços de visualização geo espacial".56
        
Em 2010, depois do governo chinês ser acusado de hackear Google, a empresa entrou num relacionamento "formal de compartilhamento de informação" com a NSA, o qual permitiu aos analistas da agência "avaliarem as vulnerabilidades" no hardware e software do Google.57 Embora os exatos contornos do acordo nunca tenha sido revelados, a NSA trouxe outras agências do governo para ajudar, incluindo o FBI e o Departamento de Segurança Nacional (DHS).
        
Ao mesmo tempo, o Google começou se envolver num programa conhecido como "Enduring Security Framework"58 (ESF), o qual ligava o compartilhamento de informação entre as empresas de tecnologia do Vale do Silício e as agências afiliadas ao Pentágono "na velocidade da rede"59 Os e-mails obtidos em 2014 através de uma requisição de Liberdade de Informação mostram que Schmidt e seu companheiro Googler Sergey Brin escreviam em primeiro nome os termos sobre o ESF com o chefe da NSA General Keith Alexander.60 Uma reportagem nos emails se focou na familiaridade na correspondência: "General Keith . . . tão bom ver você. . . !" Schmidt escreveu. Mas a maioria das matérias negligenciaram um detalhe crucial. "Suas percepções como um membro chave na Base Industrial da Defesa", Alexander escreveu para Brin, "são valiosas para garantir que os esforços do ESF tenham um impacto mensurável".
        
O Departamento de Segurança Nacional (DHS) define a Base Industrial da Defesa como "o complexo industrial mundial que permite a pesquisa e o desenvolvimento, assim como o planejamento, a produção, a entrega e manutenção dos sistemas de armamento militar, subsistemas, componentes ou partes para atender os requerimentos militares dos Estados Unidos" [ênfase nossa].”61


O diretor executivo do Google Eric Schmidt no video no Instagram de 2 de maio de 2014, apresentando um drone experimental de apoio as tropas militares dos Estados Unidos, o LS3 ou "Cujo", desenvolvido pela Boston Dynamics, recém adquirida pelo GoogleA Base Industrial da Defesa fornece "produtos e serviços que são essenciais para mobilizar, instalar e sustentar operações militares". Isso inclui serviços comerciais regulares comprados pelo exército dos EUA? Não. Essa definição exclui especificamente a compra de serviços comerciais regulares. O que quer que torne Google um "membro chave na Base Industrial da Defesa", não são as campanhas de recrutamento adquiridas através do Google AdWords ou soldados checando seus Gmail.
       
Em 2012, Google chegou no topo da lista de gastos de lobbistas de Washington - uma lista tipicamente seguida exclusivamente pela Câmara do Comércio dos Estados Unidos, prestadores de serviços militares e os leviatãs do petrocarbono.62 Google entrou no ranking acima do gigante militar da aeroespaço Lockheed Martin, com o total de $18,2 milhões gastos em 2012 contra $15,3 milhões da Lockheed. Boeing, o prestador de serviço militar que absorveu McDonnel Douglas em 1997, também vem abaixo do Google, com $15,6 milhões assim como Northrop Grumman com $17,5 milhões.
        
No outono de 2013, a administração Obama estava tentando angariar apoio para ataques aéreos contra a Síria. Apesar dos retrocessos, a administração continuou pressionando por ação militar em setembro com discursos e declarações públicas, tanto do Presidente Obama, quanto do Secretário de Estado John Kerry.63No dia 10 de setembro, Google emprestou sua página inicial - a mais popular da internet - para o esforço da guerra, inserindo uma linha abaixo da sua caixa de busca aonde podia-se ler "Ao vivo! Secretário Kerry responde questões sobre a Síria. Hoje através do Hangout às 2pm."64
     
A página inicial do Google no dia 10 de setembro de 2013, promovendo os esforços da administração Obama para bombardear a Síria
Como o autodenominado "radical do centro"
65 o colunista do New York Times Tom Friedman escreveu, em 1999: às vezes não é suficiente deixar o domínio global das corporações de tecnologia americanas para algo tão volátil como "o livre mercado":

A mão invisível do mercado nunca trabalhará sem o punho invisível. O McDonald's não pode florescer sem McDonnell Douglas, o criador do F-15. E o punho invisível que mantém o mundo a salvo para as tecnologias do Vale do Silício florescerem é chamado de Exército dos Estados Unidos, as Forças Aéreas, a Marinha e os Fuzileiros Navais.66

Se alguma coisa mudou desde quando essas palavras foram escritas, é que o Vale do Silício cresceu inquieto com esse papel passivo, aspirando por outro lado adornar o "punho invisível" como uma luva de veludo. Escrito em 2013, Schmidt e Cohen afirmam,

O que Lockheed Martin era para o Século XX, as empresas de tecnologia e cibersegurança serão para o Século XXI.67

Essa é apenas uma das várias fortes afirmações feitas por Schmidt e Cohen em seu livro, o qual foi finalmente publicado em Abril de 2013. O título provisório foi: "O Império da Mente", para ser substituído por "A Nova Era Digital: Remodelando o Futuro das Pessoas, Nações e Negócios". Na época em que saiu, eu tinha formalmente solicitado e recebido asilo político do governo do Equador e estava refugiado na embaixada em Londres. Nesse momento, eu já tinha passado quase um ano na embaixada sob vigilância policial, bloqueado de uma passagem segura para fora do Reino Unido. Online, eu percebi a imprensa comemorar empolgada o livro de Schmidt e Cohen, ignorando, vertiginosamente, o imperialismo digital explícito do título e a evidente sequência de endossamento da pré-publicação de vários famosos belicistas como Tony Blair, Henry Kissinger, Bill Hayden e Madeleine Albright no verso do livro.
Presidente do Google Eric Schmidt e Henry Kissinger, Secretário de Estado e líder do Conselho de Segurança Nacional durante a presidência de Richard Nixon, durante uma "conversa ao pé da lareira" com a equipe do Gooogle na sede da empresa em Mountain View, Califórnia, no dia 30 de setembro de 2013. Em sua fala, Kissinger disse que o denunciador da NSA, Edward Snowden é "desprezível".

Anunciado como uma previsão visionária da mudança tecnológica do mundo, o livro fracassou no que se propunha - ele fracassou até mesmo para imaginar um futuro, bom ou mau, substancialmente diferente do presente. O livro era uma fusão simplista da ideologia do "fim da História" de Fukuyama - fora de moda desde os anos 90 - e telefones celulares mais rápidos. Ele estava preenchido com retórica de Washington, as ortodoxias do Departamento de Estado e bajulações a Henry Kissinger. Academicamente, o livro era pobre - e até mesmo degenerado. Não parecia se encaixar no perfil do Schmidt, aquele homem afiado, quieto na minha sala de estar. Mas lendo, eu comecei a ver que o livro não era uma tentativa séria sobre o futuro da história. Era uma canção de amor do Google para Washington. Google, um ascendente superestado digital, estava se oferecendo para ser o visionário geopolítico de Washington.
        
Uma outra forma de ver isso é que estava apenas fazendo negócios. Para um monopólio americano de serviços de internet garantir o domínio no mercado global, ele simplesmente não pode continuar fazendo o que faz e deixar a política tomar conta de si mesma. A hegemonia estratégica e econômica Americana tornou-se um pilar vital para seu domínio do mercado. O que uma megacorporação faz? Se ela quiser controlar o mundo, ela deve fazer parte do império original do "não seja mau".
        
Mas parte da imagem resiliente do Google como "mais que apenas uma empresa" vem da percepção que ela não age como uma grande má corporação. Sua tendência de atrair pessoas para sua armadilha de serviços com gigabytes de "armazenamento livre" produz a percepção que Google está dando de graça, agindo diretamente contrária aos fins lucrativos da corporação. O Google é visto como um negócio essencialmente filantrópico - um mecanismo mágico presidido por visionários de outro mundo - por criar um futuro utópico.68 A empresa tem por vezes se mostrado ansiosa para cultivar essa imagem, injetando financiamento em iniciativas de "responsabilidade corporativa" para produzir "mudança social" - exemplificado pelo Google Ideas. Mas como Google Ideas mostra, os esforços filantrópicos da empresa também trazem um nada confortável lado imperial da influência dos Estados Unidos. Se a Blackwater/Xe Services/Academi estivesse executando um programa como Google Ideas, chamaria um intenso escrutínio crítico.69 Mas de alguma forma Google conseguiu trânsito livre.
        
Quer seja apenas uma empresa ou "mais que apenas uma empresa", as aspirações geopolíticas do Google estão firmemente emaranhadas com a agenda da política externa da maior superpotência do mundo. Como o monopólio do serviço de pesquisa do Google e de internet crescem, e com isso amplia o seu escopo de vigilância industrial cobrindo a maior parte da população mundial, dominando rapidamente o mercado de telefonia móvel e correndo para expandir o acesso à internet no sul global, Google está continuamente se tornando a internet para muitas pessoas.70 Sua influência nas escolhas e no comportamento da totalidade dos indivíduos traduz um poder real de influenciar o curso da história.
        
Se o futuro da internet é ser o Google, isso deveria ser uma preocupação séria para as pessoas de todos os lugares do mundo - na América Latina, no Leste e Sudeste Asiático, no subcontinente Indiano, no Oriente Médio, no Subsaara Africano, na antiga União Soviética e mesmo na Europa - para aqueles que a internet incorpora a promessa de ser uma alternativa para a hegemonia estratégica, cultural e econômica dos Estados Unidos.71

        Um império "não seja mau" continua sendo um império.





Esse é um trecho do novo livro de Julian Assange"When Google Met Wikileaks".



Do portal Passa Palavra.


































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