quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

'O Império passou a jogar mais duro'


Assumindo que depois da derrota da Alca (Área de Livre Comércio das Américas), o momento político colocava no centro das definições o tema da integração popular, um conjunto de organizações sociais concordaram com a necessidade de construir um espaço integracionista tendo como referência a ALBA (Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América), enquanto projeto essencialmente político que se remete ao ideal de Pátria Grande, promovido desde as guerras de independência. 

Esse processo se iniciou em julho de 2008, com a elaboração da Carta dos Movimentos Sociais das Américas que, depois de diversos debates nos diferentes países e no Fórum Social das Américas realizado na Guatemala (2008), foi aprovada na Assembleia dos Movimentos Sociais da ALBA, durante o Fórum Social Mundial de 2009, em Belém do Pará, Brasil. Como o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST) do Brasil teve um rol muito ativo na impulsão desta iniciativa, estabelecemos um intercâmbio com João Pedro Stédile, membro da Coordenação Nacional desta organização, cuja reflexões apresentamos na continuação. 


- Quais fatores e atores foram agravantes para a derrota da ALCA? 


Em essência, com a ALCA se buscou armar um aparato jurídico para proteger as operações das empresas estadunidenses orientadas a tomar o controle do mercado das Américas. E para isso, se necessitava liberdade total do comércio, anulando qualquer medida soberana dos governos nacionais. E a implantação da moeda estadunidense ea proteção jurídica plena a seus investimentos. 

Porém, para que se concretizasse esse projeto, era necessário o apoio de todos os governos da região. Mas resulta que, a partir de Hugo Chávez, em diversos países foram eleitos governos anti-neoliberais, reconfigurando um cenário que terminou por obstaculizar o avanço da ALCA.

Por outro lado, o governo dos Estados Unidos já estava fragilizado em suas propostas neoliberais, ao mesmo tempo em que perdia terreno com as derrotas político-militares no Oriente Médio.

E esse quadro se completa com a resistência popular em diversos países do continente. Em alguns, a resistência se organiza em forma de campanha explicitamente contra a ALCA. Em outros, se apresenta como mobilizações populares, localizadas, contra o neoliberalismo, o qual significava estar contra o livre comércio e a subordinação aos Estados Unidos.

Ademais, em alguns países é evidente que também agravou, com peso relativo, a postura de alguns setores empresariais locais, que não se sentiam cômodos com a subordinação total aos interesses dos Estados Unidos, já que implicava uma perda de parte de sua taxa de lucro para benefício das empresas estadunidenses.


- Quais são as principais lições que você extrai dessas jornadas? 

São muitas lições e aprendizagens desse período. Difícil nomear a todos ou estabelecer critérios por importância. Porém, cabe destacar a realização de referendos populares, de consultas ao povo, e também a realização de assembleias populares massivas, pois contribuíram para que se implemente uma significativa pedagogia de massas, que ajudou que o povo entendesse o que estava em jogo, ao politizar o debate, e a que participasse, ainda que de maneira simples: com o voto em contra.

Também foi importante a unidade entre a maioria dos movimentos populares de cada país contra a ALCA, já que era a principal bandeira de luta contra o neoliberalismo. Isso ajudou a superar os protagonismos, o sectarismo e outras práticas comuns entre nossos movimentos.


- Especificamente, o que significou nesse momento o nascimento da ALBA? 

Nesse contexto, foi agravante a visão estratégica e continental do presidente Hugo Chávez com a proposta da ALBA, sob as premissas de que: a) não é suficiente criticar aos Estados Unidos e a integração do capital, assumindo que é preciso apresentar outra proposta de integração, alternativa, uma integração que precisa ir além dos governos para adquirir um caráter popular; b) utilizou toda sua experiência e carisma para articular governantes anti-neoliberais e progressistas em torno da proposta da ALBA. E tanto assim que anuncia esta perspectiva no ato da derrota da ALCA, em Mar del Plata – Argentina -, durante o famoso rali popular em um estádio de futebol com milhares de militantes argentinos e das Américas; c) o seguinte passo, com sentido político, foi que não poderia ser só uma articulação dos Estados ou governos, mas também deveria envolver as forças populares que atuam de maneira independente dos espaços institucionais.


- No novo cenário após a derrota da ALCA, na agenda oficial se fortalece a perspectiva de uma integração soberana que, ademais da ALBA, se traduz na conformação da UNASUL e, posteriormente, da CELAC, assim como repercute em uma redefinição de outros projetos de integração, como o Mercosul, nos quais se abrem espaços para a participação de movimentos sociais. Como entender que essa abertura tenha ficado no plano formal? Qual a responsabilidade dos próprios movimentos para isso seja assim? 

Em primeiro lugar, desde um ponto de vista institucional depois da derrota da ALCA e do surgimento da ALBA, não se conseguiu aglutinar a maioria dos governos. Assim, desde o ponto de vista governamental, este se limitou a sete ou oito países, e de economias não muito representativas para o continente. Sabendo que, em realidade, a economia se move com o peso de México, Colômbia, Brasil e Argentina.

Ante essas circunstâncias, o presidente Chávez acertou ao mover-se para criar outros espaços que não eram tão populares como alternativas, mas representavam a possibilidade de uma unidade do continente contra o governo dos Estados Unidos e Canadá. E daí surgiu a proposta da UNASUL, na América do Sul, e da CELAC a nível continental. As duas iniciativas tiveram êxito, aglutinaram a todos os países, sem Estados Unidos, e na prática enterraram a hegemonia que os Estados Unidos tinham com a OEA.

O Mercosul, que nunca foi um mecanismo de integração verdadeira, foi somente um acordo comercial entre os países do sul. E creio que já tem seus dias contados, já que necessita migrar para um acordo de toda a América do Sul, no marco da UNASUL. Assim como está, já não serve para nada.

O problema é que alguns dos países governados pelos partidos neoliberais na América do Sul estariam colocando resistências, e prefeririam realinhar-se com os Estados Unidos através a Aliança do Pacífico, e agora o TPP, que abarca também parte da Ásia.

Desde o ponto de vista institucional, a crise internacional do capitalismo, as dificuldades com o preço do petróleo, produto que, para a Venezuela, é sua principal fonte de financiamento para os projetos econômicos estratégicos para o continente, tem uma influência negativa.

Em relação aos movimentos populares, que nos articulamos dentro dos parâmetros conceituais da ALBA, nós estamos nos movendo lentamente porque escolhemos caminhar com as nossas próprias pernas, tendo autonomia frente aos governo e Estado, inclusive progressistas ou de esquerda.


- Nesse novo cenário, outro aspecto que se destaca é que se dilui a articulação alcançada continentalmente pelos movimentos, e, ainda mais, praticamente se produz um refluxo desses avanços. Qual é a sua explicação sobre isso? 

Não vejo como um refluxo. Eu vejo como uma lentidão natural, porém pedagógica, de que só conseguiremos ir para frente se tivermos maior capacidade de articular forças populares em cada um de nossos países.

E, por desgraça, na maioria dos países, ainda que todos nos declaremos anti-neoliberais e anti-imperialistas, não conseguimos construir espaços nacionais unitários, que sejam a base de um movimento continental da ALBA. Então, se as forças populares não têm a maturidade para articular-se em seus países, não podem e não devem sair nas articulações internacionais, como porta-vozes da unidade. Falando em nome de quem?

Por outro lado, se imaginava que a recente conjuntura ajudaria aos movimentos populares de todo o continente para que avançassem mais rapidamente em uma re-ascensão do movimento de massas. Porém, lamentavelmente, isso não aconteceu. No momento, somente na Bolívia se mantém em ascensão o movimento de massas, que ainda que se sinta participante do governo, também o pressiona, e está em constante mobilização.

Na Venezuela, há uma vinculação muito grande entre os movimentos populares e os processos eleitorais, que se realizam a cada dois anos, e terminam monopolizando os interesses das forças populares em luta permanente contra os golpes da direita.

E, por último, o império passou a jogar mais duro, colocando em prática uma contraofensiva ante as lutas sociais e as articulações no campo ideológico, avançando com suas armas, que são os meios de comunicação, especialmente a televisão e a Internet. Nesse campo, o capital e os Estados Unidos são absolutamente hegemônicos, e tem uma grande força.

Ou seja, os poucos avanços não foram só debilidades nossas, que são muitas, mas também houve um relançamento das iniciativas ideológicas impulsionadas pelos Estados Unidos com as forças conservadoras em nossos países. E em todos os países estamos assistindo a uma confrontação cada vez maior dessas forças com as forças populares.

E as forças populares com pouca possibilidade de atuar na televisão, nos meios de comunicação massivos e na Internet. Inclusive na Internet, que se considerava que era um espaço mais livre e democrático, as revelações de Assange e Snowden deixaram claro, por exemplo, que o Google não passa de uma ferramenta à serviço e sob o controle dos serviços de inteligência do governo dos Estados Unidos.


- Hoje estamos diante de um novo cenário, tanto pela dinâmica global do capitalismo como pelas limitações registradas pelos governos de mudança, o qual deu espaço para que, inclusive entre os opositores de esquerda, se fale do fim do ciclo progressista. Desde a perspectiva dos movimentos, como encarar essa situação, sendo que existem tentativas desestabilizadoras? 

Não considero que seja o melhor caminho permanecer prognosticando o fim do ciclo progressista, ou o recomeço dos setores conservadores. Isso não é dialético. A luta de classes é permanente em cada um de nossos países, e muito dinâmica. Não podemos generalizar como uma situação em cada país. E inclusive nos países em que existe uma completa hegemonia da direita nos governos, como México e Colômbia, há uma maior intensidade da luta social, e a disposição de luta do povo.

Creio que nos encontramos em condições difíceis, devido à dependência econômica de nosso continente em relação ao capitalismo internacional. Mais do que nunca devemos recuperar as teorias da dependência (sistematizadas na década de 70) para explicar a situação de nossas economias, para não cair no simplismo de que tão somente porque os governos vão mal, ou a economia está em crise, que isso significa o fim de ciclos de governo.

Estamos no meio da luta de classes, em cada um de nossos países e no continente. E esta, cada dia, pode e tem desdobramentos diferenciados com diferentes consequências.

Nesse sentido, os movimentos populares e as forças de esquerda precisam estudar mais, conhecer melhor suas realidades e ter mais claro, nas disputas eleitorais, ideológicas e políticas, quem são nossos inimigos principais, quem são nossos aliados temporais, e quem são as forças realmente populares, que podem acumular para alcançar as transformações estruturais de nossas sociedades. E pelo pouco que li e escutei de companheiros/as em nossos encontros, existe uma confusão generalizada na maioria dos países sobre esta identificação necessária, para posicionar-se melhor nas táticas, na luta de classes.


- Na atual disputa geopolítica, o imperialismo trata de impedir que se avance na direção do multilateralismo no ordenamento internacional.  Para isso, além de seu poderio militar, tem colocado o pé no acelerador para chegar a acordos de livre comercio em diversas frentes. Na região, com a Aliança do Pacífico, globalmente com o TPP, o TTIP, TISA, entre outros. Frente a esta realidade, o que fazer a partir dos movimentos sociais? 

Temos que debater esses temas com profundidade em cada um de nossos países, pois os desafios podem apresentar-se de forma diferenciada. O primeiro passo é compreender que de fato o imperialismo do capital dos Estados Unidos é nosso principal inimigo, que se apresenta não só através das ações do governo desse país, como também, e sobretudo, com as iniciativas de empresas, corporações transnacionais, meios de comunicação e acordos internacionais. 

Segundo, precisamos seguir com o trabalho de base, para conscientizaras nossas bases, a respeito dessa realidade e do contexto da luta de classes em nossos países, que está cada vez mais internacionalizado. Ou seja, a correlação de forças no plano local não somente está determinada pelo comportamento das burguesias locais, como também pelo comportamento de forças do capital internacional.

Terceiro, temos que reimpulsionar o trabalho de formação política de nossa militância... e ter, de fato, uma estratégia de unidade política e de disputa do poder político na sociedade, no sentido elaborado por Gramsci, de que todos os espaços coletivos da sociedade, são espaços de luta política. Creio que a maioria dos partidos de esquerda se perdeu em esquemas puramente eleitorais e abandonaram a formação política de sua militância. E logo caíram no pragmatismo total, que sempre repercute em oportunismo pessoal ou de grupos.

Quarto, colocar energias na construção de meios de comunicação de massas.

Quinto, estimular as lutas de massas, somente elas podem, de fato, alterar a correlação de forças, e ser um contraponto à força do capital imperialista, a que me referi anteriormente.


- Entre outros temas agravantes, ressaltam os relativos às crises ambiental e alimentaria. Que alternativas se estão formulando? 

O capital internacional, frente a crise de acumulação cíclica que estamos vivendo, migrou com maior intensidade em direção à América Latina, para apoderar-se e tornar-se proprietário privado de nossas riquezas naturais, particularmente dos minerais (petróleo, ferro, bauxita, etc.) e da energia elétrica, eólica, e das commodities agrícolas.

Esta avalanche de capital, explorando/extraindo os bens naturais, está causando essa destruição do meio ambiente em todo o continente, que traz como consequências graves a mudança climática, o desaparecimento de água, etc.

Esse tema não estava presente na luta de classes antes de 1990, aparece somente agora. E é preciso enfrentá-lo com a mesma intensidade que frente à contradição entre capital e trabalho. A destruição do meio ambiente pode colocar em risco a vida humana no Planeta.

Nesse sentido, temos dois aliados importantes: as contradições da natureza, que coloca a cada sociedade frente às consequências de sua destruição, e, portanto, pode conduzir a uma conscientização da sociedade a respeito da gravidade, pela mudança climática, da temperatura, a falta de água, as secas, etc.

E o segundo aliado é a postura política do Papa Francisco, que mais além de seus pronunciamentos, preparou a Encíclica Laudato Si’, que é uma bela análise das causas, consequências, das agressões ao meio ambiente e da necessidade de reagir.

Assim, espero que as forças populares, ao menos as que se articulam na ALBA, abracem com prioridade este tema. 
 
- Sendo que a disputa política e social se deslocou ao espaço comunicacional midiático, como abordar esse objetivo? 

De muitas maneiras, começando com o impulso de uma luta sistemática contra o oligopólio que o capital nos impõe, com suas redes midiáticas, em especial a televisão e a Internet, a denúncia permanente de seu novo papel como organizador ideológico da sociedade em favor dos interesses do capital e da exploração. 

Por outra parte, criar de todas as formas e em todos os espaços que podamos, nossos próprios meios de comunicação de massas, sob o controle das forças populares. E articular-nos a nível continental, também e sobretudo neste campo da informação, da luta ideológica. 

Mas, ademais, lutar em nossos países para que hajam leis que democratizem e regulem os meios de comunicação, em função do interesse público. 








Do portal do Sindsep.








































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