terça-feira, 19 de janeiro de 2016

"América do Sul está rachada ideologicamente"


A um dia do Fórum Social Mundial, que começa nesta terça-feira 19 em Porto Alegre, onde reúne ativistas de esquerda, intelectuais, organizações estudantis e centrais sindicais, o cientista político e professor José Luís Fiori faz uma análise sobre a situação política atual da América do Sul, continente que, para ele, "está rachado ideologicamente".
"Agora mesmo, na Argentina acaba de ser eleito um novo presidente que é partidário entusiasta das ideias e políticas neoliberais, e que é quase um sósia ideológico do senador Aécio Neves, que foi derrotado nas últimas eleições presidenciais brasileiras, mas que teve uma votação mais do que expressiva. E o mesmo já havia ocorrido no Chile, e parece estar se anunciando na Venezuela", observa, em entrevista concedida à jornalista Letícia Duarte, do jornal Zero Hora.
"Ou seja, tudo indica que a América do Sul segue rachada ideologicamente, e uma parte significativa de suas elites, da sua imprensa e de sua população continua alinhada com a ideologia neoliberal, que segue sendo dominante nos EUA e na Europa", complementa o professor, que lembrar ter estado presente na reunião inaugural do FSM, em 2001, e se considera um "observador atento" do evento desde então.
Leia abaixo a entrevista:

Por Letícia Duarte, do Zero Hora

Na primeira edição do Fórum Social Mundial, em 2001, o discurso era marcado por uma crítica ao neoliberalismo, à globalização e à miséria. Nesses 15 anos, o Brasil e o mundo mudaram bastante. O senhor acha que estas mudanças superaram o neoliberalismo ou reduziram a miséria, na direção proposta pelo FSM? Quais os seus novos desafios?

Uma coisa difícil é sempre aceitar que a velocidade das transformações históricas é sempre menor do que a gente desejaria que fosse. Nestes últimos 15 anos houve uma diminuição sensível da miséria em muitos países asiáticos e sul-americanos, e mesmo em alguns países africanos. Mas ao mesmo tempo, neste mesmo período, ocorreu um grande aumento do desemprego e da desigualdade social, na Europa e nos EUA. E não há a menor dúvida que o neoliberalismo segue sendo a ideologia hegemônica em quase todo o mundo ocidental, apesar de que tenha diminuído a crença ingênua na utopia da globalização. Neste sentido basta olhar para os principais países sul-americanos para medir o peso e a influência atual das ideias e propostas neoliberais. Agora mesmo, na Argentina acaba de ser eleito um novo presidente que é partidário entusiasta das ideias e políticas neoliberais, e que é quase um sósia ideológico do senador Aécio Neves, que foi derrotado nas últimas eleições presidenciais brasileiras, mas que teve uma votação mais do que expressiva. E o mesmo já havia ocorrido no Chile, e parece estar se anunciando na Venezuela. Ou seja, tudo indica que a América do Sul segue rachada ideologicamente, e uma parte significativa de suas elites, da sua imprensa e de sua população continua alinhada com a ideologia neoliberal, que segue sendo dominante nos EUA e na Europa, apesar das recentes vitórias eleitorais em alguns países mediterrâneos de partidos e movimentos contrários às políticas de austeridade e às reformas neoliberais patrocinadas por Bruxelas, com o decidido apoio da Alemanha, França e Inglaterra. Por isto, do meu ponto de vista, segue sendo um desafio e um objetivo das forças progressistas, a lenta construção de uma nova hegemonia e de uma nova coalizão de forças que seja capaz de levar a cabo uma verdadeira revolução democrática no continente, sustentando ao mesmo tempo uma estratégia de desenvolvimento econômico que não se submeta ao ideário neoliberal.
Na sua avaliação, qual o maior legado do FSM? Que conquistas e desafios o senhor destacaria nesse período?

Eu participei muito pouco da história do FSM. Estive presente apenas na sua reunião inaugural de 2001, e enviei uma palestra que foi lida na reunião de 2002. Depois disto, fui apenas um observador atento, mas distante de sua evolução dentro e fora do Brasil. Assim mesmo, acho que seu maior legado foi a própria criação de um fórum amplo e universal de encontro, expressão, debate e divulgação de dezenas de causas e reivindicações de todo o mundo, que tem como denominador comum a luta pelo reconhecimento e ampliação dos seus direitos à liberdade, à igualdade, à sua emancipação e à sua autonomia frente a várias formas de dominação, subordinação, exploração, de classes, gêneros, povos, religiões etc. Neste sentido, creio também que sua principal conquista foi sua própria sobrevivência, a despeito de sua heterogeneidade e do seu alto grau de espontaneidade. Por fim, creio que seu principal desafio segue sendo o mesmo, desde a sua criação: encontrar as formas de encaminhar de forma eficaz esta luta universal e cosmopolita, dentro de sociedades e frente a estados e sociedades nacionais que são extremamente desiguais, desde todos os pontos de vista.
O slogan do FSM propunha "um outro mundo possível". O aumento da preocupação com sustentabilidade em diferentes campos pode ser lido como sinais de que que já experimentamos um "outro mundo possível"? Que mundo será esse?

A força poética deste slogan convive com sua enorme imprecisão numa fórmula q eu consegue sublinhar o denominador comum do fórum, escondendo ao mesmo tempo, a sua grande dificuldade ou fragilidade. De forma muito genérica, o FSM reúne pessoas, grupos e movimentos sociais de todo mundo que se opõem ao sistema capitalista, e às suas múltiplas formas de desigualdade e dominação social e política. Mas o Fórum não tem condições de enfrentar, e nem muito menos de resolver o problema de qual será este mundo alternativo ao capitalismo. Nem tampouco tem condições de definir caminhos ou estratégias capazes conduzir os homens, todos os homens, na direção deste "outro mundo" com que sonham. Neste sentido, "um outro mundo é possível" é um slogan que deixa em aberto o problema das alternativas e das estratégias de construção do futuro comum de seus participantes. É uma fórmula libertária que privilegia o movimento e a luta, muito mais do que o "desenho das tabernas do futuro" utópico de cada um dos seus participantes. Daí a sua força e fraqueza a um só tempo.
No Brasil tivemos conquistas sociais importantes no período, mas ao mesmo tempo o governo de esquerda liderado pelo PT acabou maculado por uma série de escândalos de corrupção, que contribuíram para fortalecer posições mais conservadoras. Que caminhos o senhor vislumbra para que o país possa avançar na construção de um modelo socioeconômico mais justo?

É verdade que tudo isto aconteceu neste período, mas creio que no Brasil e em todo mundo, a força da nova onda conservadora que começou já faz alguns anos, nos EUA e depois se espalhou por quase todo o mundo, não tem a ver necessariamente com a questão da corrupção. Com corrupção ou sem corrupção, o conservadorismo tem se manifestado e avançado por todos lados como se fosse a metástase de um mesmo câncer que ora aparece sob a forma do fundamentalismo religioso, ora sob a forma da xenofobia racista, do nacionalismo fascista, ou ainda – mais genericamente – da intolerância raivosa com relação a todo tipo de diferença ou divergência no campo da raça, do sexo, da fé ou das ideias políticas. Isto está ocorrendo, hoje, no Oriente Médio, na Europa, na América do Sul, e a força avassaladora e irracional deste novo conservadorismo já está ameaçando a própria possibilidade da convivência pacífica entre as gentes, o que coloca, como primeiro e fundamental objetivo de qualquer projeto de um mundo melhor e mais justo, a luta para barrar e reverte o avanço desta irracionalidade destrutiva. Por todos os lados estão se multiplicando os sinais e as possibilidades de novas guerras civis, de guerras religiosas e de guerras entre as grandes potencias globais ou regionais. Por isto, neste momento, acho que deve ocupar um lugar central na agenda de todos os "homens de bem", a luta pela convivência democrática, pela aceitação das diferenças, enfim, pela sustentabilidade das relações entre os homens, e da própria humanidade.











Do portal do Sindsep.






















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