quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Blog Gota d’água conversa com Stédile

Imagem: George Novaes

O Blog Gota d’água participou como convidado da Reunião da Coordenação Nacional do Movimento dos Sem Terra (MST) ocorrido no centro de Formação Paulo Freire, localizado em Caruaru, no assentamento Normandia, (26 a 30 de Janeiro). Grandes debates, análises, planejamento e diretrizes definiram os rumos do movimento para os próximo dois anos.

Tivemos a oportunidade de conversar brevemente com o economista, ativista social brasileiro e membro da direção nacional do movimento, João Pedro Stédile, que falou sobre crise, eleições municipais, a necessidade de representações sociais aglutinarem forças para a construção de um projeto político nacional, entre outros temas. 

DANIEL FILHO - Estamos aqui com João Pedro Stédille. Fique a vontade para falar desse encontro nacional do MST.

JOÃO PEDRO STÉDILE – O MST tem uma metodologia de a cada 2 anos reunir a coordenação nacional que são 15 dirigentes  por estado. Estamos aqui em 450 companheiros e companheiras. A formação é paritária, metade homens e metade mulheres. Também costumamos fazer rodízio do local para que todas as cidades brasileiras ao longo do tempo participem. Uma forma dos dirigentes irem interagindo com as comunidades locais.

Estamos muito satisfeitos de fazer nosso encontro aqui em Caruaru. O último que fizemos foi em 2003, logo quando o Lula se elegeu. Pernambuco é um estado de muita tradição de luta pela reforma agrária desde as ligas camponesas, Francisco Julião, Gregório Bezerra, os grandes intelectuais que nos ajudaram a pensar o Brasil e que são pernambucanos, como Paulo Freire, Josué de Castro... Então há um carinho muito grande do movimento por toda essa tradição de lutas. Vir aqui para Caruaru debater é como vir beber na fonte histórica e nos ajudar a ter mais clareza do que está acontecendo no Brasil e, consequentemente, nos posicionar melhor para a luta da reforma agrária. Então daqui sairemos com planejamentos para os próximos dois anos, com as principais diretrizes a orientar setores do movimento: a formação, a educação, a frente de massa, para serem aplicadas em seus estados e se tornem planos mais concretos de acordo com sua realidade. Portanto está sendo muito proveitoso e estamos muito satisfeitos com a hospitalidade e generosidade do povo pernambucano que nos encheu de comida (risos).

DF – Estamos vivenciando e vendo uma verdadeira polarização na nossa política, da qual o senhor inclusive foi vítima (agressão sofrida no aeroporto de Fortaleza. Matéria relacionada a esse tema ao fim dessa entrevista), discursos e atos ferrenhos tanto da direita quanto esquerda. Muita gente considera que nessas eleições municipais esse sentimento esteja ainda mais acirrado e que poderão definir o rumo da política partidária no país. Então gostaria que nos dissesse qual deverá ser o posicionamento do movimento para as eleições desse ano.

PS – Nós estamos preocupados, antes das eleições, com os rumos do país, pois o Brasil está vivendo uma fase muito grave que se assemelha muito o que se viveu na década de 60, de 80, que é quando se aglutinam várias crises ao mesmo tempo. Então estamos vivendo uma crise econômica, a economia brasileira está indo escada abaixo; há uma crise social, com problemas de grandes cidades se avolumando; há uma crise ambiental, por causa dessa ofensiva do capital contra a natureza, como vocês acompanham que está acontecendo com a Vale do Rio Doce, ou ainda lá em São Paulo, onde moro, que falta água todo dia; e há uma crise política que é representada pelo sequestro que os empresários fizeram da política brasileira. Com o financiamento das campanhas eles elegem quem eles querem. Estamos com uma situação patética onde temos mais de cem parlamentares e senadores réus do STF que podem vir a ser presos ou cassados por corrupção e, por conta disso, o povo não se enxerga mais nos políticos. O parlamento não representa mais o povo, então como sair disso? Para sair de uma situação tão grave, mais do que os partidos será necessário que as forças sociais brasileiras construam um novo projeto para sair dessa enrascada e isso leva tempo, pois exige uma engenharia de discutir ideias, de aglutinar forças... E o que estamos vendo agora é que nenhuma força social, nem na classe dominante, nem a classe média, nem a trabalhadora, está conseguindo ter um projeto de saída, muito menos de aglutinar forças diante de si. Então, diante da crise, cada um diz a besteira que quiser. E alguns setores, felizmente só da pequena burguesia mais reacionária das grandes cidades, é que levantaram a tese do impeachment. Mas o impeachment não resolve nada, pelo contrário, levaria a mais uma crise institucional. A própria burguesia brasileira se deu conta de que não adianta tirar a Dilma.

Felizmente nós derrubamos essa tese nas ruas com as mobilizações exitosas em 16 de Dezembro. Mas agora, ainda a classe trabalhadora, ela precisa de mais clareza de qual projeto que quer e botar o povo na rua agora tomando a ofensiva. Durante 2015 ficamos nos defendendo contra o impeachment, contra a perda de direitos... Então agora é ir para ofensiva: exigir mudança da política econômica, exigir baixar taxas de juros, defender os direitos dos trabalhadores, defender a reforma agrária. Cada um na sua área. Eu espero que esse período das eleições, ainda que municipais, que são sempre permeadas por problemas locais, as vezes mais que projetos, as eleições são disputadas pelas pessoas, pelo grau de popularidade que a pessoa tem no município, mais do que o partido... Apesar disso acho que essas eleições podem nos ajudar a politizar o debate na sociedade, até porque os problemas que os municípios estão enfrentando de falta de recursos nós não vamos resolver nos municípios. Os problemas são de ordem nacional e precisam ser resolvidos a nível nacional.
Espero que vocês lá ajudem a fazer esse debate da política brasileira.

DF – O espaço está aberto para o senhor mandar um alô aos leitores do BLOG GOTA D’ÁGUA, de Petrolândia, Sertão de Itaparica.

PS – Eu me alegro de estar conversando com todos vocês dessa região de Itaparica, Petrolândia. Espero que vocês sempre acompanham esse Blog e sempre se mantenham informados, pois só o conhecimento liberta as pessoas. E a informação, blogs, redes sociais hoje têm um poder muito grande de pelo menos democratizar a informação para que as pessoas, com a informação, tenham o discernimento para fazer o seu julgamento do que é certo do que é errado, de como se posicionar, de como votar.

Então felicito pelo esforço que vocês estão fazendo com o blog, pois é uma pequena guerrilha nessa guerra pela democratização dos meios de comunicação. Grande abraço a todos e nos ajudem a mudar o Brasil.

Sobre as agressões sofridas pelo ativista, segue link:





Com informações da assessoria.
















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