quinta-feira, 28 de abril de 2016

Conselho aprova recomendação para garantir equilíbrio de fontes no jornalismo da EBC


A cobertura do cenário político brasileiro pelos veículos da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) foi tema de debate no Conselho Curador. O colegiado se reuniu com os dirigentes e também com trabalhadores da empresa e, durante sua 61ª Reunião Ordinária, realizada no último dia 19, aprovou recomendação (acesse aqui) para ampliar a pluralidade do seu jornalismo. Os conselheiros também cobraram da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República a imediata nomeação do novo presidente da empresa, garantindo um perfil comprometido com a comunicação pública e a autonomia. 

No que diz respeito à cobertura política, o Conselho Curador recomendou que o Comitê Editorial, previsto no Manual de Jornalismo, seja reativado urgentemente, com participação dos trabalhadores e diálogo com os conselheiros. 
Além disso, o colegiado cobrou o cumprimento de uma cláusula do Acordo Coletivo de Trabalho da empresa que determina a ocupação de 70% dos cargos comissionados por pessoas do quadro efetivo, com o intuito de garantir mais autonomia frente ao Governo para gestão e produção de conteúdo. 
Rita Freire, presidenta do Conselho, afirmou que a principal recomendação do colegiado para a empresa é que se faça um esforço para diversidade de vozes. “Temos que ouvir essa sociedade que vem com uma visão crítica do que está acontecendo, trazendo mais pessoas, com mais ângulos. Não queremos mais nada do que se faça, de fato, jornalismo."
Para a presidente do Conselho, a cobertura também precisa destrinchar os temas em debate e explicar, por exemplo, o que seriam as chamadas pedaladas fiscais ou a liberação de créditos suplementares sem autorização do Congresso. "Precisamos também mostrar (quem é) o baixo clero do Congresso para a sociedade, pois eles são autoexplicativos e isso a imprensa comercial não dá. Não mostrar isso porque temos que dar voz pro Governo, que não aparece lá, é limitador."
Ricardo Melo, diretor de Jornalismo da EBC, afirmou aos conselheiros que a TV Brasil assumiu uma posição editorial de que o impeachment da presidenta Dilma Rousseff é um golpe institucional. “Estou aqui para defender o Manual de Jornalismo da EBC, mas sem nenhuma pretensão de achar que estamos na Inglaterra ou que somos a BBC. É inevitável que uma empresa pública que pretende ser democrática que não pareça defender um lado, às vezes. Uma cobertura pasteurizada e asséptica não existe no Brasil ou na América Latina, no contexto em que estamos vivendo”, disse. 
Segundo Ricardo, debatedores que apresentam oposição ao Governo foram convidados para vários programas da emissora, mas não aceitaram o convite. “Estamos abertos, somos uma tribuna aberta. O que não estamos fazendo é avisar que convidamos, mas de acordo com determinação do Conselho, vamos passar a fazer”. 
Ricardo ressaltou que o jornalismo da EBC tem trazido entrevistas com a visão de movimentos sociais diversos. “Em 1992, não existia nenhum lugar onde pudéssemos ver lideranças indígenas, o MST, movimentos de mulheres falando. Se não tivesse a EBC hoje, onde a gente ouviria a voz dessas pessoas?”, pontuou. 
Para alguns conselheiros, porém, a busca por ouvir a sociedade não foi suficiente. “Sentimos a necessidade de ver pessoas jovens fazendo esse debate. Não só a TV, mas o portal, as redes da EBC, deveriam promover espaço para que as lideranças e pessoas não notórias da juventude possam fazer leituras críticas do país”, disse Enderson Araújo. Para o conselheiro, a EBC não representa a população de favela, que não se sente atraída pelos veículos da casa porque estes têm uma aparência burguesa. 
“Onde está o equilíbrio de gênero nas bancadas? Nosso jornalismo precisa ser equilibrado no conteúdo, ser plural em opiniões, e isso precisa acontecer também em relação ao equilíbrio de gênero”, cobrou a conselheira Ana Veloso. 
Para a conselheira Letícia Yawanawá, que a partir dessa reunião passou a ser reconhecida pelo pleno por seu nome original, Matsa Yawanawá, diversos grupos indígenas fizeram suas manifestações em relação ao impeachment de Dilma e não foram retratados. “ Uma coisa é falar da presidente Dilma como presidente, outra como mulher. Quantas representações de mulheres falaram sobre isso e não foram ouvidas?”, questionou Matsa. 
Segundo Akemi Nitahara, conselheira, as reportagens produzidas para os radiojornais, agências e telejornais da casa têm conseguido manter o equilíbrio de fontes e discursos, mas no que se refere às bancadas e coberturas ao vivo de manifestações pela TV, os comentários são muito parciais. 
Na visão do conselheiro Venício Lima, porém, o jornalismo da EBC deve apresentar uma cobertura balanceada, mas em momentos como este, pode fazer a escolha de abrir espaço exclusivo para quem não tem voz em outras emissoras. “O fundamento para existência da EBC é o princípio da complementariedade dos sistemas de radiofusão, previsto na Constituição Federal. Deveria se buscar o equilíbrio entre as concessões de rádio e TV, porque aí um sistema poderia complementar o outro naquilo que o outro não faz. Isso se refere também à questão do conteúdo público, que deve oferecer o que está ausente nas empresas privadas”, defendeu. O conselheiro Paulo Derengoski, concordou: “ devemos contraditar a imprensa golpista dando não os dois lados, mas um lado esquecido”. 
Atuação da Agência Brasil 
A cobertura da Agência Brasil também foi alvo de análises do colegiado nesta semana. Durante reunião com a Câmara de Jornalismo, Denize Bacoccina, superintendente de Agências e Conteúdos Digitais, afirmou que o veículo estava procurando cobrir o cenário político com imparcialidade, sem assumir lados. “A manchete da Agência não expressa a linha editorial do veículo, ela é apenas a notícia mais importante daquele momento porque, como agência de notícias eletrônica, temos uma narrativa bem cronológica”, disse. 
Para Rita Freire, porém, a capa da Agência precisa ganhar, sim, edição editorial, pois não tem apresentado equilíbrio, aparentando ter assumido uma posição oposta à da TV Brasil. “A home é o espaço da Agência Brasil onde as pessoas mais acessam e se manifestam e ela ficou tão focada no jogo político, em dar os lados opostos, que não passou a gravidade da situação do país”, pontuou. 
“Tenho acompanhado a Agência há algum tempo e me incomodava vê-la acovardada diante do cenário midiático, sem a capacidade de fazer uma narrativa diferente. Qualquer tema que converge com o Governo é tratado como governista pela imprensa. Existe um Brasil que está na rua, que não é governista, é crítico, mas é contra o impeachment. Gostaria de ver uma cobertura mais aprofundada pela Agência Brasil”, criticou Joel Zito, conselheiro. 
Análise da Ouvidoria 
O Conselho Curador solicitou à Ouvidoria da EBC uma análise das coberturas das manifestações que foi apresentada ao pleno durante sua 61ª Reunião Ordinária. Tiago Severino, ouvidor-adjunto, ressaltou reclamações do público que apontavam para uma cobertura imparcial. “Recebemos a reclamação de uma telespectadora que afirmava que ela nunca havia entendido a linha editorial da TV Brasil, mas que, depois da condução coercitiva de Lula, seus telejornais tomaram posição pró-governo. Percebemos, de fato, um direcionamento político nas perguntas dos entrevistadores e da bancada”, relatou. 
A análise feita pela Ouvidoria trazia, ainda, pontos como um agendamento midiático – momentos em que o jornalismo da TV Brasil conclamava a esquerda brasileira a uma reação em relação aos protestos pró-impeachment, a reprise de matérias apontadas anteriormente pelo órgão como problemáticas no que diz respeito à apuração, condutas inapropriadas de apresentadores e o chamamento explícito para manifestações pró-impeachment por programas religiosos.

Confira aqui a galeria de fotos da reunião.
Acesse aqui o vídeo com a gravação na íntegra da reunião.






Do portal EBC.

























Ads Inside Post