sexta-feira, 8 de abril de 2016

Corrida por fósseis de vertebrados na Antártica mobiliza mundo da paleontologia


Por Renata Reynaldo

A confirmação sobre a ocorrência de animais vertebrados no espaço que antes da deriva continental ligava a América do Sul, África, Antártica e Austrália - o chamado supercontinente Gondwana - tem sido motivo de uma competição global entre os paleontólogos e está mobilizando dezenas de pesquisadores mundo afora, inclusive a professora de Paleontologia e de Evolução e Dinâmica da Terra do Centro Acadêmico de Vitória (CAV) da UFPE, Juliana Sayão. Integrante da recente expedição científica realizada no âmbito do Programa Antártico Brasileiro (ProAntar), a docente retornou no início de março e, sobre o resultado das prospecções, só pode adiantar que “houve muitas, grandes e boas surpresas”.


Esse suspense se deve, além da necessidade de confirmação científica sobre a natureza dos achados – reunidos em cerca de três toneladas de fósseis – à potencial relevância de se confirmar, ou não, que naquele trecho da Terra já habitaram animais vertebrados. A confirmação, segundo Juliana, seria o elo que falta para fechar o mapa de ocorrência dessa categoria animal em todo o mundo. “Já se sabe que os vertebrados habitaram, antes da deriva continental, ou seja, há mais de 70 milhões de anos, a América do Sul, África e Austrália, mas ainda não temos informações sobre a Antártica. Completar esse quebra-cabeça é importante para reconstruirmos o passado”, explica.

Mal desarrumaram as malas e os pesquisadores já começaram a trabalhar com o material coletado, sobre o qual esperam produzir ao menos dez artigos científicos (papers). Na paleontologia, o processo de finalização de uma pesquisa, que começa no campo, pode levar até cinco anos. Após a coleta, o material passa por um minucioso e rigoroso processo de depuração, preparo e limpeza e, só então, começa a comparação com outros achados no mundo inteiro para posterior classificação. Como explica Juliana, “cada material é único, por isso a primeira etapa deve ser muito lenta e cuidadosa e, depois, temos que levá-los, ou suas fotos, para comparar com o material de outros centros de pesquisas”.  A última revelação da paleontologia com a importância do que esperam revelar nessa pesquisa, segundo a professora, se deu na década de 1990, quando foram encontrados, na China, fósseis que evidenciaram a existência de dinossauros com penas.


Equipe reúne paleontólogos de vertebrados e invertebrados e geólogos

Para a coleta dos achados dessa recente expedição (houve uma primeira em 2007), os sete pesquisadores da equipe se submeteram a uma rotina de oito horas diárias de trabalhos no campo de prospecção -  isso quando a meteorologia anunciava tempo bom e essa previsão se confirmava. “Na verdade, na Antártica rotina é uma palavra que não existe, pois, por mais que a gente se planeje, o dia seguinte sempre surge com surpresas”, afirma Sayão. E essa dinâmica de revelações surpreendentes, segundo a pesquisadora, foi um dos fatores que a ajudaram a passar 70 dias, entre dezembro e março, longe da família, incluindo a filha de 3 anos. “Nos primeiros dias a saudade era grande, mas por conta das provações diárias que a região te impõe, a gente termina por abstrair essa falta e focar nos desafios do trabalho e da própria subsistência”, atesta.

A rotina era de 8 horas diárias de trabalho no campo de prospecção

Segundo Juliana, além da inegável aquisição de conhecimento científico, a experiência nessa que é uma das áreas mais inóspitas e hostis da natureza proporciona um crescimento interior de grandes proporções. E sua inquietação, após voltar da Antártica, é porque os seres humanos não conseguem replicar, na sociedade civilizada, o "Espírito Antártico" que dita como regra de convivência a solidariedade como ponto fundamental. “Lá, por conta das adversidades, a pessoa só está bem se o outro estiver também; temos que estar disponíveis para ajudar quem precisar, independente de quem for”, compartilha.

Ambiente hostil gerou o “Espírito Antártico” de solidariedade

A equipe de pesquisa contou com sete membros pesquisadores: o coordenador Alexander Kellner (Museu Nacional/UFRJ), os vice-coordenadores Douglas Riff (UFU) e Juliana Sayão (UFPE) e Thaissa Rodrigues e Rodrigo Figueiredo (UFES), Luiz Carlos Weinschutz (UC) e Luisa Ponciano (Unirio). O financiamento da pesquisa é do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnológico (CNPq). No apoio, contaram com a participação do alpinistas Renato Dias, Ricardo Leizer e Edson Vandeira.








Com informações da assessoria.
























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