quinta-feira, 3 de novembro de 2016

CIÊNCIAS AMBIENTAIS | Instalação do Porto de Suape traz problemas para comunidades próximas


Por Denise Resende

Para a população que vive próximo ao Complexo Industrial Portuário de Suape, como a comunidade do Engenho Mercês, a chegada do porto não trouxe o desenvolvimento que se esperava. Em vez disso, os moradores vêm sendo submetidos não apenas a uma mudança no estilo de vida, mas também a injustiças socioambientais e problemas de saúde. Esse cenário foi o tema da dissertação de mestrado de Stevam Gabriel Alves, "Injustiças socioambientais e interferências na saúde de populações localizadas na área do complexo industrial portuário de Suape", defendida este ano no Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente (Prodema) da UFPE e orientada pela professora Solange Laurentino dos Santos. O estudo mostrou que o complexo tem uma importância econômica fundamental para Pernambuco e para o Nordeste mas que, devido a uma série de fatores, nem todas as camadas sociais foram beneficiadas.

Durante a realização do estudo, 25 moradores do local foram entrevistados e os conteúdos foram avaliados a partir da Análise Crítica do Discurso. Eles apontaram problemas como a poluição dos rios, do ar e sonora e as doenças provocadas pelos poluentes. Além disso, houve denúncias sobre os processos de desocupação da comunidade. “Os moradores locais tinham boas perspectivas em relação, principalmente, à Refinaria Abreu e Lima. Porém, após o término das obras das indústrias, houve demissões em massa dos empreendimentos, inclusive da refinaria, causando profundas frustrações nos moradores que abandonaram suas atividades tradicionais para trabalhar nessas empresas”, afirma Stevam.

As aproximadamente 160 famílias que vivem no Engenho Mercês, escolhido pelo pesquisador quando ele percebeu as emergências existentes no local, não conseguiram manter alguns de seus hábitos tradicionais, ou seja, não vivem mais apenas da agricultura e da pesca. Hoje, a maioria tira o sustento da criação de animais de pequeno porte e da agricultura de subsistência (roça de macaxeira, milho, feijão, fruteiras), além da utilização dos manguezais do estuário do rio. Porém, isto é feito com dificuldades, em razão das alterações no ecossistema.

 Plantação de macaxeira em propriedade de um morador local

No funcionamento da refinaria, a atividade de fracionamento do petróleo utiliza insumos como água e energia. O que é descartado, mesmo depois de passar por tratamento, contêm substâncias químicas, matérias orgânicas e metais. Os riscos de explosões e vazamento nesse tipo de indústria também são iminentes. Outro aspecto relacionado às refinarias é a queima de combustíveis fósseis e a consequente emissão de poluentes, como carbono e enxofre, o que altera a qualidade do ar. Além disso, o intenso barulho provocado no processo, principalmente durante a noite, gera inúmeras reclamações dos moradores. Com a construção da rodovia que liga o Cabo de Santo Agostinho a Nossa Senhora do Ó (Rota do Atlântico), houve a realização de um serviço de terraplanagem, porém sem a drenagem para o escoamento da água, assim, as inundações passaram a ser constantes no período chuvoso.

Marca da água na parede da casa de um morador local

“Tomando como exemplo a Refinaria Abreu e Lima, esse empreendimento recebeu investimentos que beira a casa de R$ 1 bilhão e, ao mesmo tempo, irá gerar rendimentos milionários. Contudo, não proporciona nenhuma melhoria sociossanitária para as comunidades que sofrem com seus processos produtivos”, aponta o autor da pesquisa.

Como consequência, a saúde da comunidade vem sendo afetada diretamente. “Frustrações emocionais que podem levar à depressão, alterações psicológicas através da interrupção do sono causadas pela poluição sonora, alterações no sistema respiratório devido às emissões atmosféricas, alterações no sistema nervoso através da exposição a substâncias químicas nos efluentes industriais, intoxicações através do contato com substâncias químicas e ingestão de alimentos contaminados” foram as principais queixas ouvidas por Stevam e apontadas na sua pesquisa. Segundo ele, “a inexistência dos serviços de saúde na comunidade e no complexo como um todo” é um dos problemas mais visíveis enfrentados pela população.  


Vazamento de Efluente Industrial da Refinaria Abreu e Lima desaguando no mangue

A comunidade do Engenho Mercês já existia antes da chegada do Complexo e é cortada pelas principais vias internas da área portuária. Para dar mais espaço ao porto e seus empreendimentos, os moradores vêm sofrendo também com a especulação imobiliária e as desapropriações, muitas vezes feitas a força e com baixas indenizações. Quanto a isso, os moradores vêm se organizando e realizando manifestações e participando de audiências públicas, junto com membros da Assembleia Legislativa de Pernambuco, pesquisadores e professores da UFPE e ONGs, como o Fórum Suape.

Foto: Movimento Ecossocialista de Pernambuco

Operação de desocupação de família pelos seguranças terceirizados da empresa Suape em conjunto com a Polícia Militar

Para o autor, falta uma visibilidade maior para as injustiças e conflitos abordadas no estudo. Torna-se fundamental que novas pesquisas e trabalhos sejam desenvolvidos, a fim de chamar atenção da mídia e também das instâncias governamentais competentes a fim de solucionar os problemas e dar voz para população de locais como o Engenho Mercês. “Os resultados possibilitaram a identificação de alguns impactos diretos, que podem ser utilizados como subsídios pelos gestores de Suape e/ou membros das Secretarias de Saúde e/ou de Meio Ambiente do Estado para a fomentação de políticas públicas que visem à promoção do direito a habitação, saúde e um ambiente ecologicamente equilibrado”, conclui o pesquisador, que também destaca o fortalecimento da temática das injustiças e conflitos ambientais na área das Ciências Ambientais. 

Mais informações

Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente (Prodema)
(81) 2126.8288
prodema@ufpe.br

Stevam Gabriel
(81) 99573.6981 (para uso exclusivo da imprensa)
stevam_gabriel@hotmail.com



Com informações da assessoria.











































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