quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Simpósio Internacional de psicopedagogia faz balanço de sua quarta edição

Marcado pela presença de importantes nomes internacionais, workshops e painéis sobre o futuro da educação no Brasil e no mundo, o evento foi um sucesso e fomentou discussões sobre a importância das neurociências no educar e os caminhos para a psicopedagogia em uma sociedade aprendente

A 4ª edição do Simpósio Internacional de Psicopedagogia, que aconteceu em São Paulo nos dias 21 e 22 de outubro, foi marcado pela presença de especialistas brasileiros e internacionais discutindo novas perspectivas para a melhoria da educação no Brasil. Organizado pela Associação Brasileira de Psicopedagogia (ABPp), o simpósio contou com a presença de cerca de 600 participantes e 42 palestrantes, divididos em 6 painéis, 13 palestras, 10 workshops e a apresentação de 42 trabalhos científicos.

A psicopedagoga Ligia Campos veio a São Paulo pela segunda vez direto de Fortaleza acompanhar o Simpósio e comentou que a edição de 2016 se destacou por trazer uma grade de palestras com assuntos bastantes atuais e pertinentes, especialmente sobre inclusão. “A presença internacional de palestrantes também foi um grande diferencial e uma oportunidade única de termos visões diferentes sobre temas que discutimos com nossos colegas brasileiros”, disse.

Augusta Ramos, de Salvador, acredita que prestigiar o evento em São Paulo é essencial para a reciclagem profissional em um cenário de tantas mudanças sociais. “É imprescindível atualizar os conhecimentos e o Simpósio auxilia os profissionais da área a estarem sempre à frente, conhecendo as inovações por meio de diálogos interdisciplinares”, contou a psicopedagoga.

Para Luciana Barros de Almeida, presidente da ABPp, o IV Simpósio Internacional de Psicopedagogia superou as expectativas. “Acompanhar e entender as mudanças de uma sociedade aprendente constitui um exercício desafiador e essencial para os diversos profissionais da educação, principalmente os psicopedagogos, e esse era o objetivo principal do evento. O público ressaltou muito a qualidade da escolha dos palestrantes e dos temas que foram propostos, além de terem se sentido acolhidos durante o simpósio”, comemorou.

Palestrantes internacionais

O Simpósio teve início com uma conferência apresentada pelo professor português no departamento de educação especial e reabilitação da FMH/UTL, Vitor da Fonseca, com o tema “A psicopedagogia como mediadora por uma neurociência educacional”. Outro grande destaque do primeiro dia do evento foi a palestra da psicopedagoga argentina especializada em neurociência, Sandra Torresi. Com o tema “Emoção, processos cognitivos e aprendizagem autorregulada”, a especialista explicou que por muito tempo a cognição foi separada da emoção, porém esse binômio é inseparável porque essa conexão está diretamente ligada à tomada de decisões e habilidades sociais. “É necessário que os profissionais de educação trabalhem na escola o desenvolvimento emocional através de um processo que envolve identificação das emoções, aceitação, expressão e regulação. Precisamos dar valor às emoções como força fundamental para a aprendizagem”, pontuou.

De acordo com a psicopedagoga, é importante que uma criança perceba que é capaz de gerenciar adequadamente suas emoções e aprenda a fazer isso, já que a emoção orienta a aprendizagem, desperta a curiosidade e a atenção e é a coluna de apoio do processo de ensino. “O consenso científico é que o processo cognitivo aliado à motivação por parte dos profissionais de educação e à auto regulação, resulta em um desempenho diferenciado dos alunos. O estímulo deve acontecer na escola, porque assim as crianças serão capazes de manter o nível adequado de emoção para realizar suas tarefas, formular metas, gerenciar suas relações sociais e estarem cientes de seus pontos fortes e fracos no aprendizado”, comentou Torresi. 

Outro momento importante do evento foi o painel “Transtornos de aprendizagem e neurodesenvolvimento”, iniciado com a palestra “ Sinais precoces de transtornos de aprendizagem”, do pediatra e neurologista infantil Clay Brites, que acredita que identificar sinais precoces auxilia a suavizar consequências antes da escolarização e evitar ou reduzir os sintomas de transtornos de desenvolvimento e aprendizagem. Para o neurologista, é necessário que a escola esteja atenta a todo e qualquer tipo de sinal em seus alunos que possa caracterizar dificuldades de aprendizagem. Quando há essa identificação por parte da instituição, o primeiro passo é realizar uma intervenção pedagógica primária em pequenos grupos que não estão acompanhando a progressão. “A escola deve ter uma visão dinâmica para modificar seus métodos e suas abordagens e esperar as respostas das crianças. A partir daí, se alguma criança desse pequeno grupo não acompanha, o próximo passo é realizar uma intervenção individualizada e especializada com avaliação diagnóstica das principais dificuldades, porque só assim é possível saber como intervir”, explicou. 

Segundo o especialista, é possível identificar os sinais de risco quando o desenvolvimento motor da criança é especial, observando seu comportamento global e o desenvolvimento de linguagem e também entendendo seu histórico familiar e de risco ambiental, como fatores que aconteceram durante a primeira infância e podem ter afetado o desenvolvimento neurológico. “Algumas das condições que apresentam sinais precoces são as síndromes genéticas, TDAH, transtorno do espectro autista, dislexia e deficiência intelectual”, disse Brites.

O painel seguiu com a palestra “Transtornos da aprendizagem não verbal”, ministrada pela neuropsicóloga Maria de Lourdes Tabaquim. Apesar de as crianças que possuem esse tipo de transtornos terem capacidade intelectual maior do que a média e não terem queixas acadêmicas, elas apresentam dificuldades em compreender gestos, expressões faciais, noções de tempo, espaço, tamanho e direção, bem como auto percepção. “Quando a criança tem um transtorno de aprendizagem não verbal, ela aprende, mas a qualidade daquilo que ela apresenta é incompatível com a qualidade do raciocínio intelectual que ela tem e isso afeta o desempenho da criança na escola, relacionamento com amigos e também o relacionamento social e familiar”.

Segundo dia

O segundo dia do Simpósio foi iniciado com a conferência magna “Aprender na vida e aprender na escola”, ministrada pelo professor espanhol de psicologia evolutiva Juan Delval, que acredita que vincular o conhecimento escolar, que hoje é desconectado do dia a dia e não é prático, além de não responder a problemas cotidianos e ao conhecimento espontâneo que a vida ensina às crianças, é uma maneira de formar adultos mais complexos e preparados. “A escola tem que se perguntar qual o objetivo de ensinar o que está no currículo e que tipo de cidadão quer formar, oferecendo como buscar soluções, novas perspectivas, ajuda na busca de informações e proporcionando conhecimento científico, aproximando o ensino do dia a dia dos alunos”, comentou.

Para o professor, o ideal seria que todas as crianças fossem escolarizadas durante muitos anos, tendo suas necessidades materiais satisfeitas para que assistissem a uma escola na qual recebessem uma formação que lhes permitissem ser felizes, tornando-os adultos providos dos conhecimentos necessários para inserir-se no mundo social de forma produtiva. “Esse tipo de escola seria democrática porque formaria cidadãos dispostos a cooperar com os demais e participar ativamente da vida coletiva, capazes de eleger as formas de governo mais convenientes para todos, que conduzam a sua sociedade, e a espécie humana em geral para um mundo mais justo, mais livre e que todos vivamos em paz e onde não se produzam atos de agressão, nem por parte dos indivíduos e nem por parte dos governos”, finalizou o especialista.

No workshop “Desafios da aprendizagem: como as neurociências podem ajudar pais e professores”, ministrado pelo professor titular do Instituto de Psicologia da USP, Lino de Macedo, o destaque foi entender de que modo os estudos em neurociências podem lançar luz sobre vários aspectos do desenvolvimento de crianças e adolescentes na escola, já que a escola para todos necessita de um novo conceito de aprendizado. “Todas as pessoas têm uma interação diferente com o mundo e isso nos influencia, além de também termos a matriz genética que cria tendências. A herança desses dois pontos tem como resultado a individualidade e entender como cada criança desenvolve essa individualidade é um grande desafio”.

Macedo explicou que qualidade de vida na gravidez já é uma maneira de educar as crianças e que os desafios da aprendizagem já começam no período intrauterino. “Muitos pais acreditam que as crianças só aprendem quando entram na escola, aos dois anos, mas em seu dia a dia ela já está aprendendo a todo tempo. O cérebro é um órgão de relação que funciona por conexões e está aberto à formação de circuitos neuronais, mas muitas crianças não têm acesso a esse estímulo de sorrir, conversar, trocar”, pontuou.

A psicóloga da Universidade de Brasília, Elizabeth Tunes, apresentou a palestra “Inclusão ou sequestro”, desenvolvendo a metáfora da inclusão como sequestro ao partir do exame crítico do que é concebido como inclusão social sob a temática da inclusão escolar. “A escola é uma instituição de exclusão escolar por meio de um currículo pré-determinado, uniformização de conteúdos e avaliações e por ter o poder exclusivo de certificar aptidões. Toda padronização é uma maneira de exclusão social porque quem não se ajusta está fora e a escola é a detentora exclusiva do saber considerado de mais alto valor na sociedade. Incluímos para poder continuar excluindo”.

Neurociências e aprendizagem

A quarta edição do Simpósio Internacional de Psicopedagogia foi encerrada pelo painel “Possibilidades e desafios entre neurociências e aprendizagem”, iniciado pela psicopedagoga e especialista em neuropsicologia, Adriana Foz, que apresentou o conceito de neuroplasticidade do cérebro, a capacidade adaptativa do sistema nervoso central. “Aprender é uma forma de plasticidade cerebral porque enquanto o cérebro muda, funções e comportamentos mudam ao mesmo tempo. Se o conhecimento for apropriado e fizer sentido, a capacidade plástica é atualizada, permitindo alterações biológicas, químicas e físicas. Por meio do estímulo cerebral, é possível trabalhar as faculdades que não são tão apuradas em cada indivíduo ao ensinar e para educar é preciso entender a individualidade, a plasticidade e a relevância das emoções”, comentou.

O neurologista da infância, Marco Arruda, explicou sobre como o desenvolvimento de métodos para identificação precoce de habilidades e dificuldades em funções executivas, metacognição e saúde mental é a melhor oportunidade para intervenção na crescente interface entre as neurociências e a educação. “Com avaliação psicométrica, é possível mensurar as funções executivas, que são mutáveis. Dessa maneira, ao realizar uma intervenção precoce, conseguimos mudar o perfil da função, melhorando o desempenho escolar e a regulação comportamental e emocional”.

O painel foi finalizado com a palestra “Repensando a alfabetização com base nas neurociências”, de Alessandra Gotuzo Seabra, psicóloga e pós-doutora em psicologia, que apresentou algumas das evidências recentes, provenientes das neurociências, acerca do funcionamento neurológico que ocorre durante tarefas de leitura e escrita. “A forma como você instrui a criança direciona a área cerebral que ela vai usar para responder a tarefa. Se é sabido que precisamos fomentar essas habilidades e isso está relacionado a uma base neurológica, conseguimos entender o padrão de funcionamento cognitivo da criança, oferecendo instruções que vão ajudá-la no desenvolvimento. A alfabetização deve ter um foco equilibrado lembrando de todas as habilidades envolvidas”, finalizou.


Sobre a ABPp

A ABPp é uma associação de âmbito nacional, sem fins lucrativos e econômicos, de caráter técnico, científico e social, com atividades no exercício da Psicopedagogia. Fundada em 1980, a ABPp agrega psicopedagogos brasileiros com a finalidade de propiciar o desenvolvimento, a divulgação e o aprimoramento desta área de conhecimento por meio de debates, reuniões, conferências, cursos, seminários, simpósios e eventos de âmbitos regional, nacional ou internacional. Atua também na publicação de artigos científicos de profissionais conceituados alimentando a pesquisa e a formação continuada, facilitando o acesso dos profissionais a conteúdos pertinentes à sua área de atuação. Atualmente a ABPp possui 15 Seções e 3 Núcleos distribuídos pelo território nacional e vinculados sob sua orientação.www.abpp.com.br





Com informações da assessoria.






























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